Comunicado do MPL-DF sobre convite da presidenta

Nosso diálogo é nas ruas!

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O governo convidou o MPL para sentar mais uma vez na mesa presidencial. Participamos desta reunião enquanto coletivo do MPL DF, membro da federação nacional do MPL. Recebemos esse convite com descrença, uma vez que desde a última reunião com a Dilma, em junho do ano passado, a única resposta que o MPL teve por parte do governo foi o aumento de passagem em 4 cidades, nenhum passo no sentido da tarifa zero, e a PEC 90 empacada.

Se o governo Dilma nos chama para conversar com uma suposta intenção de estabelecer um diálogo com palavras, nas ruas a única forma de expressão do governo são bombas, prisões e balas de borracha, assumindo uma postura autoritária sobre as nossas reivindicações. Vivenciamos a intensificação da repressão e a criminalização dos protestos, porém não vimos nenhuma iniciativa de regulação da violência policial. Ao mesmo tempo que os governos nos obrigam a retirar as máscaras, os policiais são instruídos a não se identificar para se manter inimputáveis quanto a violência que exercem contra @s manifestantes.

Lembramos que assim como o direito ao anonimato do voto garante a possibilidade de não ser coagid@ em uma democracia, o anonimato nas manifestações é uma garantia de que não seremos perseguidos em função das nossas opções políticas – a não ser que o governo assuma que não estamos em uma democracia e portanto não podemos nos expressar politicamente sem sermos perseguid@s.

Marcamos também nesta nota pública o nosso incômodo com a forma desta reunião que convoca simultaneamente 32 entidades. Entendemos que esta é uma maneira de esvaziar a pauta de todas e de cada uma delas.Quanto a nossa pauta específica, cabe lembrar que lutamos pela tarifa zero, ou seja, a livre circulação de pessoas como expressão do direito à cidade. Toda a sociedade se benefecia do transporte coletivo, porém apenas @s usuári@s pagam diretamente por ele. Pagam por um transporte que as submete a superlotação, aos longos trajetos, ao sucateamento, a falta de linhas, e a agressão sexual. Essa situação aumenta as desigualdades sociais, uma vez que esta é a parcela mais empobrecida da população, a quem a tarifa atinge com maior violência.

Os governos justificam o aumento das tarifas com base na inflação, quando sabemos que a tarifa do transporte coletivo é um dos fatores que contribuem com o aumento do custo de vida da população. Prova disso é a redução da inflação no segundo semestre de 2013, quando se reduziu a tarifa em 11 capitais do pais. Assim, a tarifa zero que lutamos é também uma medida antinflacionária.

Se essa reunião é uma tentativa de evitar uma nova onda de protestos como a que houve em junho do ano passado, é bom lembrar que a revolta da população se dá como uma reação aos problemas que enfrentamos no cotidiano.

Voltamos a perguntar: porque convidar ao dialogo enquanto as políticas do governo com o transporte coletivo intensificam a revolta popular? Nossas reivindicações já estão colocadas em cada rua trancada e nossa indignação aumenta a cada giro de catraca.

Por uma vida sem catracas,
Movimento Passe Livre do Distrito Federal

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Solidariedade total à luta da comunidade da EEM João Gonçalves Pinheiro!

O Movimento Passe Livre Florianópolis se solidariza à luta dos professores e de toda comunidade escolar da EEM João Gonçalves Pinheiro, vítima de um duro golpe do governo do Estado, que persegue politicamente, com demissões e afastamento de 14 professores, “culpados” unicamente por lutarem contra a precarização da educação pública e contra a irresponsabilidade e incompetência do governo do Estado.

Divulgamos abaixo uma nota do Movimento Sinte pela Base, em repúdio ao autoritarismo do governo do Estado.

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MOVIMENTO SINTE PELA BASE: NOTA PÚBLICA EM REPÚDIO À EXPULSÃO E AFASTAMENTO DE 14 PROFISSIONAIS DA EDUCAÇÃO! CERCAR DE SOLIDARIEDADE OS QUE LUTAM!

Exatamente no dia 1º de Abril, dia em que a oligarquia comemora os cinquenta anos do golpe militar de 1964, o Estado catarinense, seguindo fielmente a sua tradição anti-democrática, inicia na EEB João Gonçalves Pinheiro uma repressão sem limites. O governo Colombo encaminhou interventores na escola, retirando a pouca autonomia já existente da comunidade escolar, demitiu arbitrariamente todos os professores ACT´s da escola (em torno de dez) e entrou com processo disciplinar administrativo contra quatro professores efetivos, um dos quais em estágio probatório. Estes últimos foram afastados preventivamente do exercício, não podendo comparecer nas imediações da escola em que estão lotados.

A demissão dos ACT´s se deu com o argumento de que estes tiveram mais de uma semana de faltas, anexando-as a uma cópia da famigerada lei dos ACT´s, que estabelece que três faltas consecutivas é o suficiente para a demissão destes professores. Em comunicação interna do interventor com uma professora, a que tivemos acesso, já se fala da contratação de novos professores ACT´s. Acontece que os professores compareceram diariamente no ambiente escolar e as faltas compulsórias não se justificam. Acontece que não há mínimas condições para se exercer o trabalho docente naquela escola. Na assembleia do dia 2, a grande maioria de pais, alunos e comunidade reiteraram o posicionamento de não voltarem às aulas sem a readmissão dos professores e o fim dos processos administrativos.

Os afastamentos, registrados no Diário Oficial da União do dia 1º de abril (SIC!) e entregues a alguns dos professores pelo oficial de justiça na porta da escola, partem do pressuposto de que os professores impediram o trabalho dos interventores. Estes mesmos interventores, desrespeitando os direitos das crianças e adolescentes, colocavam-nas em situação risco de vida, pois, até o dia 21, o laudo dos bombeiros definia a interdição daquela escola. Os professores e a comunidade escolar só cumpriram o artigo 70 da Lei 8069/90, do Estatuto da Criança, em que “É dever de todos prevenir a ocorrência de ameaça ou violação dos direitos da criança e do adolescente”. Mexeu com um (no caso, com quatorze), mexeu com todos!

Como nós, professores da rede estadual, entraremos em sala de aula sabendo que nossos colegas foram expulsos e estão sofrendo retaliação por exigirem seus direitos? Sabemos que amanhã qualquer um de nós pode sofrer o mesmo por reivindicar condições mínimas de salubridade no nosso espaço de trabalho. O Sinte deve se posicionar no sentido de mobilizar a categoria para responder o governo à altura. Com base nisso, nós, do Movimento Sinte pela Base, reivindicamos:

Consoante com os artigos 73 e 97 do Estatuto da Criança e do Adolescente, no seu inciso I, exigimos o afastamento definitivo dos senhor Secretário de Educação Eduardo Deschamps, o secretário de Desenvolvimento Regional, Clonny Capistrano e dos interventores na escola EEB João Gonçalves Pinheiro.

Cobramos o Ministério Público e o Conselho Tutelar, que devem zelar pelo cumprimento do artigo 98, referente às Medidas de Proteção à criança e ao adolescente, no seu Capítulo I, sobre a não oferta ou oferta irregular do ensino obrigatório e noturno, adequado às condições do educando, que são aplicáveis sempre que os direitos reconhecidos nesta Lei forem ameaçados ou violados por ação ou omissão da sociedade ou do Estado;

Lutar não é crime! Pela imediata recontratação dos professores ACT´s!

Pelo arquivamento dos processos administrativos disciplinares!

Pelo abono das faltas dos professores!

Pelo fim de qualquer tipo de assédio na escola!

Pelo fim da Lei dos ACT´s!

Pelo imediato uso da nova escola no Rio Tavares!

Por eleições livres e diretas na escola!

Por condições dignas de salubridade nos espaços de trabalho escolar!

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Heranças da ditadura nas cidades, por Raquel Rolnik

O artigo abaixo foi publicado hoje pela Folha de São Paulo. No site VioMundo há uma entrevista em que autora se aprofunda mais na questão. Escute a entrevista aqui!

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Na década de 70 no Rio de Janeiro, ônibus privados monopolizavam o transporte de moradores que foram anteriormente removidos de favelas para lugares muito afastados dos centros urbanos. O que mudou?

Heranças da ditadura nas cidades, por Raquel Rolnik

Apesar das promessas da constituinte de 1988, algumas lógicas do período autoritário permanecem

Desde a semana que marcou os 50 anos do golpe militar no Brasil, muito tem se falado sobre o período autoritário, do contexto que o produziu, da repressão, da censura, dos que resistiram…

No campo da política urbana, uma reflexão necessária é: em que medida o processo de redemocratização do país rompeu com as formas de organização do Estado brasileiro para promover políticas públicas e até que ponto elementos de continuidade se fazem presentes.

Nesse campo, infelizmente, apesar das promessas da Constituinte de 1988, algumas lógicas herdadas do período autoritário permanecem. Ainda em 1964, o regime militar cria o Banco Nacional de Habitação (BNH), que em 1967 passa a gerir os recursos do FGTS, constituindo-se em um agente financiador de habitação e desenvolvimento urbano.

O modelo que se conforma naquele momento permanece hoje: a política urbana nacional é constituída basicamente por uma única fonte de financiamento, centralizada na esfera federal e estruturada de forma setorializada para financiar obras de construção de casas e de infraestrutura de saneamento e circulação.

A crise de urbanidade de nossas cidades demonstra que os quase 50 anos de operação dessa máquina de financiamento –apesar da falta de recursos nos anos 1980/1990 –não foram capazes de promover cidades includentes e equilibradas.

Nossas políticas de habitação ilustram bem os elementos de ruptura e continuidade dessa lógica. A implementação de uma política de financiamento da casa própria logo após o golpe atendia a duas demandas: uma econômica, de dinamização da economia do país, e outra política, de constituição e ampliação de uma base social de apoio ao regime junto às classes médias.

Para a população mais pobre — as maiorias –, o BNH financiou escassas moradias de péssima qualidade nas periferias das cidades, ofertadas pelas Cohabs.

Hoje, com o programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV), é a população de menor renda que tem acesso a um subsídio público para comprar a casa própria ofertada pelo setor privado, que é responsável por conceber o projeto, escolher a localização e executá-lo.

São muitas as diferenças entre o MCMV e o BNH, a começar por seu foco e escala. Além disso, os controles e formas de fiscalização são muito maiores por parte da Caixa, sucessora do BNH.

Porém, deixada para o setor privado a decisão sobre a localização, sendo o subsídio fixo e na ausência de qualquer política urbana e fundiária, a operação será tanto mais rentável quanto menor o custo da terra a ser adquirida. Assim, os conjuntos do MCMV começam a repetir nas cidades as velhas Cohabs.

Assim como seu predecessor, o MCMV não é uma política habitacional/urbana, mas uma estratégia de dinamização da indústria da construção civil, concebida para promover uma reação econômica diante da ameaça de uma crise internacional e para ampliar e solidificar uma base social e política, agora junto à “nova classe média”.

Como dizia Gabriel Bolaffi ainda em 1975, habitação e política urbana não são problemas distintos: são o mesmo problema. Mas a política urbana, raiz dos problemas habitacionais de nossas cidades, ainda clama por uma reforma do Estado que não ocorreu.

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[Amanhã!] Ditadura nunca mais! 50 do golpe.

Amanhã é dia de lembrar. Lembrar e agir, para que não volte nunca mais e para que seus resquícios sombrios deixem de existir imediatamente.

Caminhada pela Memória, Verdade e Justiça:

Concentração: sede da União Catarinense Estudantil (UCE), na rua Álvaro de Carvalho, 246, Centro, Florianópolis.

Evento no Facebook

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Aula inaugural contra as ditaduras:

1º de Abril, aula inaugural da EEM João Gonçalves Pinheiro, na ESCOLA NOVA, ao lado do Tirio.

Temática: os 50 anos do golpe civil-militar no Brasil.

-Matutino: às 8:00 -Vespertino: 13:30 -Noturno: 19:00

Aula aberta à toda comunidade.

A EEM João Gonçalves Pinheiro não iniciou o ano letivo de 2014, devido à situação precária do antigo prédio e pela falta de vagas para alunos da comunidade (o que levou à situação ilegal de mais de 70 alunos de 13-15 anos serem matriculados no período noturno – o mesmo ocorre em outras escolas estaduais).

A comunidade está indignada com o atraso de 4 anos na entrega da nova escola. Em agosto do ano passado, o governador disse que era “questão de honra” começar as aulas na nova sede. Em fevereiro, prometeram que entregariam no dia 20 de Março. Agora, a promessa é 30 de Abril. Quem acredita? Enquanto enrola a comunidade, o governo promove assédio moral contra os educadores e enviou dois interventores para administrar a escola e forçar o início das aulas de qualquer jeito. Práticas típicas da ditadura que se perpetuam em nossa pseudo e frágil democracia.

A comunidade decidiu em 3 assembleias democráticas por só iniciar as aulas no prédio novo, mesmo que esse ainda não tenha sido entregue, pois está em melhores condições que a antiga escola.

É uma vergonha que os políticos que possuem a máquina estatal nas mãos não tenham resolvido esta simples questão de cunho puramente administrativo, usando a educação para fins eleitoreiros. Essa postura configura improbidade administrativa, desrespeito com a moralidade pública e afronta à vontade democrática da comunidade escolar.

A escola pública resiste!

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Nota pública: A comunidade não aceita mais promessa!

Chega de catracas na educação! Solidariedade total a luta e a desobediência civil tomada pela comunidade da EEM João Gonçalves Pinheiro!! Segue abaixo a nota pública dos professores, pais e alunos:

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Assembléia da comunidade escolar

Mais uma assembleia, a segunda em um mês e a terceira significativa. Dessa vez, mais de 300 pessoas. Em pauta, novamente as condições para o início do ano letivo na EEM João Gonçalves Pinheiro, calendário escolar, intervenção na escola.

Em fevereiro, a comunidade indignada decidiu não começar as aulas na escola velha, que apresenta problemas estruturais graves e não oferece vagas suficientes para todos os jovens da comunidade – pelo menos 70 adolescentes de 13-15 anos estão matriculados no período noturno (o que é proibido pelo Estatuto da Criança e Adolescente). Alguns ainda aguardam vaga na lista de espera.

O obra da nova escola está 4 anos atrasada. No mês passado, o Secretário da Educação Eduardo Deschamps e o Secretário de Desenvolvimento Regional Clonny Capistrano prometeram a entrega para o dia 20 de Março. Mais uma vez não cumpriram o prazo. O edifício está praticamente concluído, já em melhores condições que o antigo.

Por respeitarem a decisão de pais e alunos, professores têm sido ameaçados de demissão. A direção foi exonerada. Para o seu lugar, a SED enviou dois INTERVENTORES para administrar a escola. Estes têm promovido assédio moral contra os educadores. Ameaçam dar falta para quem não der aulas, proíbem a utilização da secretaria, telefone e equipamentos da escola, estão ligando para a casa dos alunos dizendo que as aulas já começaram, não queriam nem emprestar as cadeiras da escola para a realização da assembleia, dificultando o acesso dos funcionários aos materiais disponíveis para a realizações das práticas pedagógicas.

Após a discussão, a Assembleia deliberou:

1 – pela saída imediata dos interventores; 2 – elegeu uma direção temporária para a escola, composta por professores que atuam há anos nesta unidade e comprometidos em respeitar a decisão comunitária; 3 – decidiu pelo início das aulas na nova escola no dia 1º de Abril; 4 – formou o Conselho Deliberativo da unidade, composto por trabalhadores da escola, pais e alunos.

O governo tem a obrigação de garantir vagas para todos na escola pública. E não pode ser na base do improviso. Os filhos de trabalhadores têm garantia constitucional da qualidade de ensino. Qualidade esta, que não se resume só a questões estruturais, mas, também, a garantia de uma educação fundamentada nos princípios da liberdade, da igualdade e da democracia, estes, caros, para a manutenção de nossa república.

A Comunidade Escolar da EEM João Gonçalves Pinheiro, através de suas virtudes, demonstra como a Escola Pública pode transformar a sociedade de forma significativa. Este exemplo de compartilhamento de poder deve ser incentivado como forma de mobilização da sociedade civil organizada. Ora, o que mais preocupa as aristocracias que se perpetuam no poder desde a época do descobrimento do Brasil são os atos de resistência oriundos das classes periféricas, excluídas e exploradas.

O Movimento extrapolou as barreiras geográficas do Sul da Ilha, não é mais só por um prédio novo, e sim por uma nova forma de pensar a educação pública no Brasil.

Ante o exposto, convocamos todos aqueles que acreditam que a educação é a única forma de libertar o ser humano, a juntar-se a nossa comunidade para multiplicar estas ações de desobediência civil legítima, frente às práticas autoritárias que ainda existem em nossa pseudo-democracia.

FORA INTERVENTORES!

FORA PRÁTICAS FACISTAS E ANTIDEMOCRÁTICAS!

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Passados 50 anos do golpe, a ditadura dá sinais de vida no Sul do país!

*Uma nota de solidariedade do Movimento Passe Livre de Florianópolis.

Há aqueles para quem já é tempo de esquecer os anos de chumbo. Para outros, recuperar a memória e a verdade não é só uma questão de justiça, mas uma ação essencial para refletir sobre a história e impedir que tais episódios lamentáveis voltem a acontecer. Nós, movimentos jovens, que nascemos nas últimas décadas, temos a infeliz chance de sentir na pele um tanto do que foi vivido pelas gerações passadas. A conquista da democracia precisa dar muitos passos adiante, pois o cheiro de gás lacrimogênio ainda infesta nossos corpos e lutar por outro mundo é uma ousadia. Há gente que bata no peito com orgulho para dizer que é da região Sul do país – tão rica, tão desenvolvida, tão evoluída, tão superior… Para nós, ela não tem sido mais do que palco de uma lamentável escalada de violência e repressão contra o povo e os movimentos sociais.

Por Ramiro Furquim/Sul21

Manifestante ferido pela polícia – Porto Alegre, 2013

Em Outubro de 2013, a polícia do Rio Grande do Sul promoveu prisões arbitrárias durante as manifestações e não economizou no lançamento de bombas e balas de borracha, ferindo dezenas de pessoas nas ruas da capital do estado. Uma semana depois, a mesma polícia invadiu a casa de dois militantes que faziam parte do Bloco de Luta pelo Transporte Público de Porto Alegre, além de centros culturais libertários e do assentamento urbano Utopia e Luta, que é moradia de muitas famílias. Não bastasse a invasão, a polícia apreendeu materiais de propaganda política e livros de moradores, escancarando as lembranças de ameaças à liberdade vividas na Ditadura Civil-Militar. No início desse ano uma militante deste mesmo movimento relatou que seu filho, de apenas 7 anos, foi intimidado por um segurança durante reunião do Bloco de Lutas. A invasão das casas e centros foi consequência da abertura de um inquérito no dia 1 de Outubro, que resultou no indiciamento, divulgado dia 14 de Março de 2014, de sete militantes do Bloco de Lutas.

Por Ramiro Furquim/Sul21

Polícia gaúcha garantindo a integridade física do Fuleco, mascote da Copa - Porto Alegre, 2013

Numa tentativa clara de criminalizar a luta dos companheiros gaúchos e jogar a população contra as mobilizações que sacodem a ordem local, a polícia do RS acusa os sete militantes de “posse e emprego de explosivos, furto qualificado, dano simples e qualificado, lesão corporal e constituição de milícia privada”. O inquérito é uma peça medonha que tem por objetivo calar os movimentos e inaugurar, no plano jurídico, a nefasta portaria do Ministério da Defesa de “Garantia da Lei e da Ordem”, encaminhada pelo governo supostamente “popular” do Partido dos Trabalhadores. Essa forma de criminalização poderá não só render o encarceramento dos militantes da capital gaúcha, como também pode servir de modelo para a repressão futura em outros locais do país.

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Policiais apontam armas para manifestantes – Santa Maria, 2014

A menos de 300km de Porto Alegre, a cidade de Santa Maria (RS) também foi palco de espancamento de manifestantes por parte da polícia. No dia 20 de Fevereiro desse ano, a prefeitura da cidade anunciou um aumento nas tarifas de ônibus usando cálculos suspeitos de irregularidade e superfaturamento. No mesmo dia armou-se uma manifestação em frente a sede da organização que representa as empresas de ônibus.

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Ferimento causado por bala de borracha – Santa Maria, 2014

Quando um manifestante jogou tinta no prédio, a Brigada Militar, amparada pelo Batalhão de Operações Especiais, deu início a uma ação truculenta e desproporcional, que deixou várias pessoas feridas. Os policiais dispararam balas de borracha a queima roupa, atiraram pelas costas de quem tentou correr para longe e jogaram bombas no centro da cidade. Muitas pessoas ficaram machucadas e uma senhora desmaiou depois de levar uma coronhada de um policial. Em um ato totalmente pacífico, que contava com cerca de 100 pessoas, pelo menos uma dezena delas ficaram feridas e ambulâncias tiveram que ser chamadas para socorrer os manifestantes.

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Manifestante atacado pelos cães da polícia – Blumenau, 2014

Mais perto de nós e ainda mais recente, um episódio tragicamente parecido aconteceu em Blumenau (SC). No dia 13 de Março, cerca de 130 pessoas participaram de uma manifestação contra o aumento das tarifas de ônibus chamada pelo Coletivo Tarifa Zero. O ato seguiu até um dos terminais da cidade acompanhado por um grande contingente policial que levava consigo cães treinados para ataque. Quando os manifestantes resolveram fechar as vias de acesso ao terminal, os policiais partiram pra cima. O resultado foi atroz: 5 manifestantes detidos, 11 pessoas feridas (5 delas, hospitalizadas) e outras tantas que estavam no local e receberam cacetadas, spray de pimenta e balas de borracha. Nem mesmo os trabalhadores, idosos e crianças que se encontravam no terminal escaparam da ofensiva policial. Entre os feridos estava um menor de idade que sofreu várias mordidas dos cães da polícia de Blumenau. Um manifestante levou pontos na cabeça e um dos detidos teve o braço fraturado pela polícia, necessitando passar por procedimento cirúrgico. Na semana seguinte, uma nova manifestação foi convocada e, mais uma vez, um grande contingente policial foi usado para reprimir os manifestantes, levando à prisão aleatória de mais uma pessoa.

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Cavalos na manifestação do MPL – Joinville, 2014

Na cidade de Joinville (SC), a criminalização de quem luta pelo direito à cidade tem sido ainda mais sistemática. Em Agosto de 2013 o Movimento Passe Livre promoveu uma manifestação que questionava as irregularidades na contratação de empresas de ônibus e defendia o direito ao transporte para todos através da Tarifa Zero. Simultaneamente, acontecia uma reunião do Conselho das Cidades, que em teoria é pública e de acesso irrestrito a todos. Os militantes resolveram entrar na reunião. Em reação, um conhecido advogado da elite empresarial joinvilense, Álvaro Cauduro de Oliveira, está processando um apoiador do movimento que estava presente na reunião e que, supostamente, teria causado danos à porta do recinto no momento da entrada dos manifestantes. Não há provas de que o militante tenha causado qualquer dano patrimonial e sabemos que a quebra de uma dobradiça de porta não é nada comparado ao dano causado a toda população pela maneira injusta e irregular que é gerido o transporte coletivo em Joinville. No entanto, sabemos também que através desses processos medíocres, os poderosos, aliados com a mídia corporativista e apoiados pelo Estado, procuram causar desgastes nos militantes e criminalizar a luta, jogando a população contra os movimentos.

Não bastasse esse caso, existe ainda a possibilidade concreta de que mais 3 militantes também sofram processos criminais em Joinville. O MPL organizou atos contra o aumento das passagens de ônibus no início desse ano. No final de um desses atos, em 22 de Janeiro, a polícia abordou um ônibus que saía do terminal usando seis viaturas, motos e policiais, intimidando os presentes e dizendo que havia uma bicicleta sendo transportada de maneira irregular no interior do ônibus. A história serviu de desculpa uma  repressão injustificável da polícia. Fato é que no final do ato uma manifestante entrou com sua perigosa bicicleta dentro do ônibus, com consentimento de passageiros e de um fiscal da empresa de transporte, para voltar pra casa. Devido à abordagem caótica da polícia, militantes que apoiam o MPL foram ao local averiguar o que ocorria.

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A prova do crime – Joinville, 2014

Descontente com a presença dos militantes, o comandante da operação resolveu prender de forma imediata três deles, alegando que esses eram os “líderes” das manifestações. Além de uma das prisões ter sido efetuada com a tentativa de quebrar os dedos de um dos manifestantes e com ameaças de morte a outro, no interior da delegacia todos foram vítimas de desmoralização e piadas homofóbicas. Vendo os vídeos que registram o momento das prisões, fica óbvio pra qualquer um que a ação da polícia foi totalmente ridícula e descabida. Além desses dois casos, é sabido que alguns militantes da Frente de Luta pelo Transporte, da qual o MPL faz parte, estão sendo intimados para depor como testemunhas de supostos casos de depredação. A polícia está investigando os militantes a mando da Prefeitura e das empresas de ônibus, e mais pessoas serão intimidadas com o objetivo de criminalizar os movimentos locais.

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Polícia Federal “dialoga” com professor da UFSC que tentava mediar o conflito – Florianópolis, 2014

Ainda ontem, em Florianópolis, a polícia gerou revolta quando levou a cabo uma ação desmedida e de força desproporcional na Universidade Federal de Santa Catarina, ferindo vários estudantes e trazendo suas lembranças dos anos de ditadura. Mesmo os professores e autoridades do campus que tentaram mediar a situação não foram ouvidos e acabaram também sendo agredidos pelos policiais. Lembramos que não é a primeira vez que a polícia entra nos espaços universitários da cidade de forma truculenta. Toda história do MPL na cidade, desde o início, esteve marcada por episódios de criminalização e repressão policial, dentre os quais, alguns se deram dentro dos campus da UFSC e da UDESC. Fato é que a entrada da polícia dessa vez, como em outras, se deu como resposta violenta diante de estudantes que se mobilizaram coletivamente contra uma ação que não consideraram como justa. Essa é a mesma polícia que, longe dos olhos atentos da universidade, promoveu pânico invadindo a Ocupação Palmares semanas atrás e que faz vistas grossas aos capangas que, volta e meia, ameaçam a vida das famílias da Ocupação Amarildo de Souza, no norte da ilha.

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Manifestante é preso e agredido dentro da UDESC – Florianópolis, 2010

Por trás de todos esses casos de violência, criminalização e repressão por parte do Estado e sua força repressiva, está um recado bastante claro: aqui, a democracia tem limites e a polícia, não precisa de motivos plausíveis para espancar. Por mais progressistas que se proclamem os diferentes governos, os últimos episódios vividos aqui no Sul, bem como em outras partes do país, mostram que o discurso democrático se desmancha quando o povo não fica calado diante do que considera injusto e insiste em participar das tomadas de decisões sobre o que acontece ao seu redor. Os governos de estado e as prefeituras têm se mostrado totalmente despreparados para suportar a participação popular, sempre defendendo os interesses do capital e usando a polícia, com sua herança ditatorial bárbara, para “dialogar” com a população. Isso sem falar, é claro, das ações violentas que essa mesma polícia executa diariamente nas periferias de nossas cidades e das quais o centro nem ouve falar.

Nós, militantes do Movimento Passe Livre de Florianópolis, queremos dizer que somos solidários a todos aqueles e aquelas que insistem em ousar lutar e que não se calam diante das injustiças sociais, arriscando a sua saúde e integridade física para construir um mundo mais digno. Outras gerações resistiram, e nós seguiremos em luta. E aos que insistem em reprimir os movimentos, avisamos que a vitória do povo virá. Não por algum milagre, mas porque somos extremamente teimosos.

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[Hoje] Campanha pela Homologação da TI Morro dos Cavalos

Ainda em tempo:

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Campanha pela Homologação da Terra Indígena do Morro dos Cavalos

Hoje, dia 25 de março de 2014 as 20 hs na Assembleia Legislativa de SC.

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