[amanhã!] Oficina de comunicação segura!

Cada vez mais faz-se necessário desenvolver novas estratégias para se comunicar de forma saudável e segura, principalmente se você é militante e atua em movimentos sociais! Por isso aproveite essa oficina super importante que será oferecida pelo pessoal do Tarrafa Hacker Clube amanhã! Mais informações sobre o evento aqui!

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II Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro em Santa Catarina

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O Coletivo Negro 4P (Poder Para o Povo Preto) está  convocando geral a participar da II Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro em Santa Catarina! Vejam que será no mesmo dia, mas um pouco depois do início do ato em solidariedade aos indígenas do Morro dos Cavalos! As duas lutas são importantíssimas, então precisamos fazer um esforço pra participar das duas. Quem sabe elas não se encontram depois? Afinal, estamos todos/as juntos/as em uma mesma luta: contra as catracas da opressão!

A passeata será realizada no dia 22 de agosto ás 11 hs da manhã e ponto de encontro será frente a ALESC- Assembléia Legislativa do Estado de Santa Catarina- Praça das Bandeiras.

“A Campanha Reaja ou será Morta, Reaja ou Será Morto, diante da conjuntura de brutalidade, violência, super encarceramento e morte da população negra; diante do confinamento de comunidades inteiras em campos de concentração batizados de UPPs ou Bases de Segurança; diante das remoções forçadas de famílias inteiras para o benefício do capitalismo cujos defensores são os maiores investidores nos chamados jogos internacionais (Copa e Olimpíadas); diante do Estado de exceção constituído por leis que suprimem a própria lei garantindo execuções sumárias e extrajudiciais, prisões sem fundamentos e a barbárie generalizada no espaço urbano militarizado e perigoso para nossas vidas desprotegidas de iniciativas legais, ou submetidas a iniciativas legais de nosso abate; diante de instituições que deveriam garantir a efetivação de direitos que se calam e ajoelham frente aos nossos algoze, diante da nossa eliminação;. Diante da nossa execração quando mulheres são arrastadas por carros, jovens são amarrados em postes e linchados, suspeitos baleados agonizam em frente a policiais, comunidades inteiras submetidas a uma política de controle, como se isso não bastasse para comprovar que estamos em uma guerra de genocídio racial; diante do silêncio de parte do movimento social, incluindo de negros e negras que está atrelado aos governo federal e locais que pautam os movimentos sociais com seus garotos de recado constrangidos fazendo seu trabalho em ano eleitoral, ao mesmo tempo em que os governos matam e humilham a população negra, elaborando e apresentando programas ineficazes e sem dotação orçamentaria e mandam seus mediadores e porta-vozes acalmar as vozes das ruas. Assim, diante do exposto, a Campanha Reaja ou Será Morta, Reaja ou Será Morto, em diálogo com irmãos e irmãs em todo território nacional, em diálogo com irmãos e irmãs da Europa e Estados Unidos, da Colômbia e Barcelona, convoca, convida, conclama as organizações negras em particular e as organizações do movimento social, de um modo geral, a tomarem sua voz de volta e REAGIREM. Façamos a II Marcha Contra o Genocídio do Povo Negro tomando nossa voz de volta, dando um salto de unidade e autonomia, de solidariedade e luta contra o racismo e pela vida.
Esse texto é uma orientação geral quanto aos princípios que animam quem almeja, de verdade, construir essa II Marcha Nacional Contra o genocídio do Povo Negro.
Chamamos todas e todos para essa II Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro de forma autônoma, independente e revolucionaria. Eis nossos princípios inegociáveis:
• A II Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro tem como tema: A luta Transnacional Contra o Racismo, a Diáspora Negra Contra o Genocídio.

• A II Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro reconhece e respeita a autonomia histórica das mulheres negras que tem reagido e resistido a opressão dirigida as nossas comunidades e criado instituições poderosas de luta, solidariedade e humanidade do povo negro em todas os continentes, as mulheres negras são a linha de frente dessa Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro, as coordenadoras e impulsionadoras de nossa ação nas ruas do país;

• A II Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro é uma ação política independente e centrada na luta contra o racismo e o genocídio, na qual os negros e negras terão suas vozes para falarem de si próprios, sem mediadores ou acadêmicos bem-intencionados para serem porta vozes de nossa luta;

• A II Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro deve ser organizada nas bases, nas comunidades, nas favelas e prisões, nos quilombos e aldeias, nas fábricas e nas ruas, nos terreiros de candomblé, nas casas de batuque, de xangôs, de tambor de mina, nas posses e quebradas e devem ter essas coletividades como sujeitos e não como objeto de estudo ou barganha em articulações politicas;

• A II Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro repudia o uso eleitoreiro de nossa desgraça seja por qualquer partido ou grupo politico-eleitoral, pois nossas demandas não cabem nas urnas ou em projetos alheios a autonomia preta;

• A II Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro terá caráter internacional na lutanegra;
• Fora desses princípios qualquer iniciativa não poderá ser apresentada como II Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro sob pena de desafiar nosso repúdio Nacional e Internacional;

• A II Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro não terá qualquer vínculo partidário ou eleitoral, e quem assim o fizer estará fazendo outra coisa não a II Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro.
Contra o Genocídio do Povo Negro, Nenhum Passo Atrás, Campanha Reaja ou Será Morta, Reaja ou Será Morto.”(Fonte do Texto: http://reajanasruas.blogspot.com.br/2014/05/ii-marcha-nacional-contra-o-genocidio.html)

Contando com a presença de todos!
Coletivo Negro 4P- Poder Para o Povo Preto”

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Ato pela homologação das terras indíginas

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Convidamos a todas e todos para participar do importante ato pela homologação das terras indígenas do morro dos cavalos, na próxima SEXTA FEIRA, dia 22/08, vamos nos encontrar EM FRENTE AO BAR KOXIXOS, DA AV. BEIRA-MAR NORTE.

A  homologação é um direito conquistado, mas que vem sendo negociado e deturpado pelas mídias de massa da região. Como o Grupo RBS que publicou recentemente uma reportagem “especial” veiculada em seus meios, sobretudo no Jornal Diário Catarinense, intitulada: Terra Contestada, nos dias 07, 08, 09, 10, 11 e 12 de Agosto de 2014. Tal matéria tinha um conteúdo vexatório, discriminatório, racista, tendencioso e“parcial” corroborando com ideias e pensamentos que marginalizam os povos indígenas ao longo da História deste país. Estes povos vêm sendo paulatinamente execrados e deixados à margem de uma sociedade.

Nos solidarizamos com a luta do povo Guarani e rechaçamos mais uma vez as posturas da mídia que só faz atacar os que lutam. Somos todos Guarani!

Para saber mais sobre o processo de homologação acesse:
http://campanhaguarani.org/morrodoscavalos/

Leia a nota de repudio a respeito das reportagens vinculadas pelo grupo RBS:
http://campanhaguarani.org/morrodoscavalos/nota-de-repudio-da-anpuhsc-contra-as-serie-de-reportagens-terra-contestada-da-rbs/

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A educação agoniza, e a culpa é… de quatro professores!

Estamos passando por uma grave situação de perseguição política em Santa Catarina. Uma empreitada do governo que  que tenta punir justo quem mais luta pela educação pública do estado. Informe-se abaixo lendo o texto do professor Eduardo Perondi. 

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Foto: Coletivo Maruim

Da minha parte, assumo: sou culpado. Pela condição lastimável em que se encontra a educação pública catarinense. Não há nenhuma outra razão.

Engana-se quem acha que a situação está desse jeito porque o governo estadual desde 2005 investe na educação menos do que exige a legislação, como denunciou o tribunal de contas e noticiou a imprensa. Esses 800 milhões de reais não teriam mudado essencialmente nada. Aliás, não é porque nosso Estado é um dos que mais arrecada com impostos que a educação deve receber mais investimentos.

Não deveria ser também porque são muitas as escolas com problemas de infraestrutura, como as que chovem na cabeça dos alunos, ou o teto mesmo ameaça desabar sobre todos. As caixas d’água sem limpeza, fossas inadequadas, cozinhas insalubres não são motivo para aluno tirar nota baixa. A falta de acessibilidade para estudantes que possuem necessidades especiais também não comprometem os bons resultados de uma educação inclusiva, pois não importa tanto se você não pode ir ao banheiro, o que importa é a vontade de aprender.

Também não é porque os professores fazem “vaquinha” para comprar a água, o café, a caneta para escrever no quadro, dentre outras coisas importantes para o exercício da profissão. Não tem nada a ver se o salário é miserável, se as salas são superlotadas, se a hora-atividade não é paga, se há redução da carga horária a qualquer momento, se rompem o contrato por qualquer motivo (no exemplo mais comum, porque o ano acaba..), se a maioria continua temporário nas escolas. Nem faz diferença se os funcionários da limpeza, merenda e segurança sejam terceirizados ou contratados pela APP da escola. Quem escolheu trabalhar na educação não pode usar isso como desculpa.

Também não é porque os recursos didáticos garantidos aos educadores, além da saliva, são o quadro e giz. Os recursos compartilhados, como salas de informática e de vídeo, também podem ser utilizados com agendamento prévio, desde que não tenham sido também improvisados para alguma eventual falta de salas de aula. Estão chegando também equipamentos para modernizar as práticas pedagógicas, e nem faz tanta diferença se os computadores e o tablet do professor vieram antes da internet rápida e da rede sem-fio.
Não é porque a direção das escolas é cargo “de confiança”, geralmente ocupado por pessoas que decepcionariam muito os políticos que se envolveram na sua indicação caso não defendam os interesses do governo. Interesses que podem ir desde “dar uma improvisada” na falta de vagas até praticar assédio moral contra os educadores e estudantes que reclamam ou desmobilizar a comunidade. Mas isso tudo não explica a bagunça e baderna que se vê nas escolas.

Não deve ser porque as bibliotecas dispõem de poucos e desorganizados livros. Tudo bem que em Santa Catarina nunca fizeram um concurso pra contratar bibliotecários (as) para as escolas, mas o problema é geralmente resolvido quando há um professor doente na escola, que é “readaptado” e mandado para a biblioteca, pra servir pra alguma coisa. E se os livros estivessem inacessíveis porque não há ninguém para abrir e cuidar da biblioteca, bastaria aos alunos interessados procurar alguém que tenha a chave, ou esperar pra ver se depois da aula consegue.

Não deve ser também porque existe algum tipo de perseguição aos educadores que reclamam da condição da educação. É apenas coincidência que muitos desses tenham seus CPFs bloqueados no “sistema” por motivos mal explicados e não consigam pegar mais aulas no ano seguinte. A recorrência dos processos administrativos que “afastam preventivamente” alguns professores nos lugares onde há protestos, greves ou mobilizações também não afeta em nada o bom ensino dos jovens catarinenses. Com certeza não criaram uma lei recentemente para “normatizar os processos administrativos disciplinares contra servidores públicos” pensando em processar docentes. Só se fosse para coibir os “funcionários-fantasma” do magistério, cuja existência diretores de escola e gerentes de educação não tem conhecimento, apesar de pagarem-lhes o salário e aceitarem que não cumpram horários nem assinem o livro-ponto – obrigações diárias de todos os demais.

Por essas razões, além de outras tantas que poderiam ser acrescentadas, solicitamos educadamente:

Pais: parem de fazer boletim de ocorrência na polícia para exigir vaga para seu filho; não façam mais denúncia no Ministério Público se sua filha de 14 anos foi matriculada no período noturno; deixem de reclamar na TV que a escola do bairro demorou 4 vezes mais e custou quase o dobro do que o previsto para ser construída;
Estudantes: não reclamem se a água do bebedouro estiver meio esverdeada de vez em quando; não façam cara feia só porque a falta de professores é recorrente; obedeçam todas as ordens que vierem de quem é responsável por educá-los, mesmo que às vezes elas pareçam meio absurdas ou violentas;

Professores: deixem de lamentar o soldo e a chibata de cada dia, afinal pagar o aluguel e ser respeitado não é tudo na vida de um educador. Cadê o prazer do mestre em ensinar por amor, até mesmo debaixo de uma árvore se não tiver outra opção? Parem de querer discutir outras formas de ensinar, não é porque esse modelo de escola se parece um pouco com depósitos ou prisões que vocês devem se acomodar;

Comunidade escolar: pare de reivindicar que a escola sirva para alguma coisa. Não é porque ela é um direito de todos, assegurado pela Constituição Brasileira, que isso deve ser colocado em prática. Tudo bem que a legislação define a escola como um espaço democrático, mas daí vocês querem participar de assembleia, eleger diretor, decidir juntos como a escola vai funcionar, aí já é demais.

Parem todos de reclamar, nem precisa de mais investigações. Os quatro culpados por essa condição deplorável em que se encontra a educação pública catarinense já foram identificados. Na verdade agora são cinco, porque alguns meses depois de processarem os primeiros, eles perceberam que tinham esquecido de um outro. Sempre é tempo, afinal a justiça tarda mas não falha. Isentem os demais de qualquer pena, arquivem as denúncias, ainda bem que outros possíveis responsáveis sempre são inocentados. Da minha parte, eu confesso: a culpa é toda nossa. Tirem-nos da educação e verão como as coisas se resolvem rapidamente.

Professor Eduardo

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10 anos da Revolta da Catraca

Foto: Jorge Minela

por Carol Cruz

Este é um texto bem pessoal, baseado quase que completamente na memória afetiva, por isso peço antecipadamente desculpas por prováveis imprecisões. Foi também escrito às pressas, a guisa de homenagem e rememoração do aniversário de 10 anos da Revolta da Catraca de Florianópolis, SC. Não vou me aprofundar sobre o que foi este evento que marcou de modo ímpar a vida na cidade e colocou definitivamente a reivindicação de um transporte coletivo público e de qualidade na pauta política de Florianópolis, sobre tudo na de seus movimentos sociais1. Aqui eu escrevo um pouco sobre a sua importância para a formação de um grupo específico, o MPL- Floripa – uma das origens do Movimento do Passe Livre, que se encontra hoje em diversas cidades do país e que ano passado foi fundamental para recolocar o tema do transporte coletivo no debate político nacional.

8 de julho na verdade marca a vitória deste movimento contra o aumento das tarifas que começou no dia 28 de junho de 2004. No dia 8 foi anunciada a revogação do aumento, após a recomendação do Ministério Público do Rio Grande do Sul diante do “caos social” que havia se instalado na cidade. Neste dia o poder público decretou ponto facultativo e o centro da cidade foi tomado por uma grande festa, com as bandas locais tocando, desconhecidos se abraçando e a esquerda, que há tempos não conquistava tamanha vitória, confraternizando.

Durante dez dias de insurreição popular nós vivemos experiências políticas que infelizmente não foram registradas e por isso às vezes temo que esqueçamos o que aprendemos com elas. Assembleias de rua, reuniões do Fórum do Transporte tão cheias que precisavam ser transferidas das pequenas salas de sindicatos para o Salão Paroquial da Catedral, rádio livre instalada no centro transmitindo ao vivo informações das manifestações, o CMI online e impresso como referência de meio de informação da cidade, comitê de pais e mães fazendo sopa para os manifestantes, atos que pareciam surgir espontaneamente em diversas regiões da cidade…

Mas não foi por acaso que esse atos apareceram com mais vigor em locais aonde já existia uma certa organização de resistência política. Foram militantes mais experientes que fecharam o Terminal de Integração do Rio Tavares (TIRIO). Professores universitários, sindicalistas e integrantes da associação de bairro já envolvidos na luta por um plano diretor mais democrático e justo. Sobre este ato em particular ainda, descobri há alguns anos algo curioso que corrobora com essa tese; durante uma oficina sobre tarifa zero realizada numa escola no Ribeirão da Ilha, um aluno relatou ter participado do fechamento do TIRIO ainda criança, levado pelos pais e tios adeptos da teologia da libertação.

As manifestações que aconteciam durante o dia no bairro Trindade e no centro da cidade eram maioritariamente formadas por estudantes secundaristas já engajados na luta por passe livre estudantil que era travada na cidade desde dos anos 2000. Entre os alunos e alunas de escolas como Colégio de Aplicação, Simão Hess, Autonomia, Centro Federal de Educação Tecnológica (o ex CEFET e atual Instituto Federal de Santa Catarina), Lauro Müller entre outras, haviam integrantes importantes da Campanha pelo Passe Livre, então tocada pela Juventude e Revolução Independente (dissidência da da JRI da Corrente o Trabalho do PT) e que deu origem ao coletivo do Movimento Passe Livre Floripa.

Como já escreveu um companheiro, não foi um raio em céu azul. E por isso preocupa quando ouvimos a história ser contada dando-se tanta ênfase à espontaneidade, como se aí residisse a a garantia do estatuto de autonomia e radicalidade da luta, na pureza da “espontaneidade popular”. E sim, o Movimento Passe Livre já gostou bastante de contar a história deste modo. Há quem ainda o faça. Mas ano passado ela voltou para nos assombrar numa brutal recusa à organizações políticas de esquerda e sob a forma de agressão a camaradas de partidos de esquerda, do movimento negro e até àqueles que simplesmente saíram vestindo vermelho durante as manifestações.

Em 2004 era incipiente a nossa crítica às tradicionais organizações de esquerda, ao PT que recém chegava ao poder, aos movimentos sociais que o apoiavam, aos partidos que tentavam sim aparelhar as manifestações. Fez parte da nossa formação diferenciarmos-nos desta esquerda, e isso se expressa na nossa carta de princípios na qual nos reivindicamos autônomos, apartidários, horizontais e independentes. Muito embora o MPL-Floripa nunca tenha se recusado a dialogar com partidos e, diferente de outros MPLs, sempre teve em seu coletivo militantes filiados a partidos de esquerda, durante a Revolta da Catraca cantamos palavras de ordem para que baixassem suas bandeiras, quando não quebramos algumas. De modo que não podemos nos fazer de desentendidos em relação as confusões violentas que aconteceram nas manifestações de junho, nem deixar de reconhecer a limitação dessa crítica que, enquanto discussão coletiva, tanto local quanto nacional, pouco avançou.

É claro que aprendemos muitos com a Revolta da Catraca. Ela evidenciou a centralidade do transporte coletivo para cidade. A partir dela ficou mais claro a força mobilizadora da pauta do transporte público para além de uma reivindicação estudantil. Acredito que a partir dali, ainda que tateando, vislumbramos a construção de uma luta feita na rua, através de manifestações e ações direta, e, talvez o mais importante, com uma pauta concreta, que afeta a vida, o cotidiano, os corpos das pessoas. Acho que naquele momento já se abriam os caminhos para a luta pela tarifa zero, bandeira que conhecemos e abraçamos alguns anos depois.

A falta de mobilidade nas cidades, para onde se deslocam cada vez mais pessoas, e a crise do modelo de transporte coletivo cada vez mais caro e ineficiente, davam os primeiros sinais de atingir um limite. A intuição que nos fez apostar no poder de mobilização da luta por transporte, assim como na construção de um movimento nacional, foi se materializando, e vimos nesses dez anos revoltas contra o aumento da tarifa eclodirem nas principais cidades do país. As importantes vitórias que resultaram das Jornadas de Junho de 2013 deram ao Movimento Passe Livre certo destaque, o que finalmente colocou a Tarifa Zero no debate público como proposta séria e viável, o que com certeza foi para nós a maior vitória.

No entanto, ao ensaiar uma espécie de balanço dos dez anos do MPL não consigo superar um certo pesar e pensar que enquanto organização política não avançamos tanto quanto nossa bandeira. Sempre me vem a cabeça um texto do Felipe Corrêa, “Balanço crítico acerca da Ação Global dos Povos (AGP) no Brasil”1, no qual ele esboça uma caracterização e aponta as limitações do que ele chama de “Cultura da AGP”. Acredito que herdamos muito do que ele aponta ali.

Embora tenhamos construído uma proposta de luta bastante concreta, ainda estamos presos ao mito das decisões por consenso, da horizontalidade, autonomia, apartidarismo (que volta e meia descamba para o anti-partidarismo).

Embora tenhamos entre nós militantes altamente qualificados, pesquisadores, com debate teórico profundo sobre mobilidade, direito à cidade e inclusive sobre o próprio movimento, isso não é apropriado pelo MPL que acaba associando o debate teórico às práticas autoritárias da esquerda tradicional.

Embora muitos dos seus militantes sejam hoje jovens adultos e que amadureceram dentro do MPL, ainda somos um movimento de jovens prepotentes e arrogantes, que ativamente ignora a história da esquerda no país e na América Latina e até sua própria recente história. Olhamos com desconfiança movimentos sociais clássicos como MST, e não reconhecemos que somos apenas uma organização política que ainda não alcançou o status de movimento que pretendíamos ser quando o colocamos no nome.

Eu sei que talvez essas críticas sejam muito duras e foram colocadas de uma maneira um pouco simplista. Mas vivemos tempos tão interessantes, de tanta transformação, que precisamos ser duros com nós mesmos para agir de modo que o mundo mude mais para como gostaríamos que mudasse, do que para como ele nos empurra avassaladoramente. Por isso nada melhor do que buscar força, inspiração e reflexão em uma vitória, em um momento tão forte e que marcou definitivamente nossa trajetória como a Revolta da Catraca de 2004.

Que venham mais revoltas por uma vida sem catracas!

 1. Sobre isso recomendo os livros “Guerra da Tarifa” 1 e 2 de Leo Vinícius, e este texto meu e do Leonardo Alves escrito para o evento 5 anos das Revoltas da Catraca, construir a memória da resistência em Florianópolis”, no qual tentamos reunir alguns dos acontecimentos que marcaram a Revolta (http://revoltadacatraca.wordpress.com/about/).

 

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Inauguração do SIM, só que não.

Ontem, às 17h, em frente ao TICEN, o Movimento Passe Livre e o Sindicato dos Trabalhadores do Transporte Urbano fizeram a inauguração simbólica do “novo” sistema de transporte coletivo da capital. Teve prefeito e tudo. Juninho foi apresentar as “mudanças” que ele está implementando, ou seja, vender o mesmo sistema mas com uma pintura bonita por fora.

Veja as fotos na nossa galeria abaixo e entenda melhor as mudanças aqui.

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*Fotos: Bruno Henrique

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Leia o panfleto distribuído na inauguração.

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Santo Juninho, o prefeito milagreiro!

 

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Nas últimas semanas, a população de Florianópolis tem sido apresentada a uma série de inovações no transporte coletivo. Tem projeto de Teleférico no Maciço, Tarifa Social para o povo, redução no preço das passagens, Passe Livre pros estudantes pobres e muita tecnologia no novíssimo SIM (Sistema Integrado de Mobilidade). Será que a prefeitura resolveu finalmente tomar vergonha na cara?! É um milagre?!

Sabe de nada, inocente!

Relembrar é viver. Como foi que tudo isso aconteceu? Ano passado, foi lançado o edital de licitação do transporte. Este apresentava claras indicações de fraude, limitando a concorrência. Isso quer dizer que só as mesmas empresas de sempre – que prestam um serviço porco há mais de 80 anos – poderiam concorrer a licitação. Dito e feito: com o novo nome de Fênix, essas empresas ficam com o direito de explorar o transporte da cidade por mais 20 anos. A lógica estrutural do sistema também permanece intacta: o transporte continua sendo visto como mercadoria. A demissão de 350 trabalhadores é a primeira medida para aumentar o lucro. Os cortes de linhas e os ônibus cada vez mais lotados fazem parte desse sistema que não está nem aí para os usuários. Não foi apresentada nenhuma proposta para a integração com a região metropolitana, onde mora quem mais sofre com o preço das tarifas e as péssimas condições nos ônibus. A verdade é que o prefeito é mesmo um cagão e só fez foi garantir o lucro das empresas. Assim como a pintura nova disfarça os ônibus de sempre, o papinho da tecnologia tenta esconder que de novo esse sistema não tem é nada. Mas pra não dizer que não falamos das flores do SIM…

A aparição dos 15 centavos.

Para alegria geral do povo, o prefeito resolveu abaixar a tarifa imediatamente! Que maravilha! O problema é que, nesse caso, a própria população esta pagando essa redução. Epa! Como assim? Quando a tarifa estava custando R$2,90 (dinheiro) e R$2,70 (cartão) o subsídio era de 28 centavos por passageiro. Esse valor é pago pela prefeitura aos empresários para aumentar ainda mais o lucro das empresas usando como desculpa o custo das isenções (idosos, pessoas com deficiência, etc.). Ou seja, o passageiro pagava R$2,90 e a prefeitura R$0,28, totalizando um total de R$3,18. Agora com a passagem a dinheiro custando R$2,75 o subsídio da prefeitura subiu para 42 centavos, ou seja, R$2,75 + R$0,42 dá um total de R$3,17. Isso quer dizer que deixamos de pagar diretamente alguns centavos e passamos a pagar mais através do subsídio. A redução real da passagem foi de um mísero centavinho. Essa redução por aumento do subsídio poderia ter sido feita antes e não é resultado de licitação nenhuma. Mas toda redução é válida, né? Só que o edital da prefeitura diz que as empresas podem aumentar as tarifas todos os anos.

A sagrada Tarifa Social.

Hoje, a chamada Tarifa Social já é aplicada em linhas que circulam nos locais com maior concentração de famílias de baixa renda. Essas linhas são geralmente sucateadas e não possibilitam que os moradores paguem o mesmo valor para outras regiões da cidade, prendendo as pessoas no trajeto casa – trabalho – casa. A nova Tarifa Social, de R$ 1,75, vai valer para quem tem renda familiar de até 3 salários mínimos. Dessa forma espera-se que essas pessoas possam circular em todas as linhas (não metropolitanas) pagando esse valor. Mas, se realmente existe interesse em se melhorar o acesso à cidade, porque não tornar a Tarifa Social um direito? Como benefício, bastará essa gestão acabar para a Tarifa Social estar à beira da morte, levando com ela o Passe Livre estudantil para estudantes de baixa renda. Além disso, ao instituir a Tarifa Social a prefeitura reconhece que o transporte coletivo, na capital, é para os pobres. Com isso, segue a sua mania feia de privilegiar as políticas de incentivo ao uso de carros, criando filas cada vez maiores.

Abençoado seja o Passe Livre.

O Passe Livre estudantil foi aprovado na Câmara em 2004, graças às manifestações e muita insistência da população de Floripa. Naquele momento, o projeto de lei foi aprovado na câmara, porém vetado durante as férias escolares por um desembargador que inventou que a medida era inconstitucional. Essa mesma proposta, de Passe Livre estudantil universal e irrestrito, para todos os estudantes da cidade, depois foi aprovada no Distrito Federal graças à luta popular. O Passe Livre que a prefeitura defende agora, atrelado à Tarifa Social, além de excluir outros estudantes que também precisam, não é um direito, mas somente um benefício, que poderá ser retirado quando for conveniente. Se o prefeito não fosse um covarde, ampliava o passe livre para o povo e o transformava em um direito.

Bendito teleférico nas alturas.

Outra novidade santa é o tal do Teleférico que vai ser construído no Maciço do Morro da Cruz e que custará uma bagatela de dois milhões de reais por mês em subsídio. O teleférico terá somente 3 estações: centro, alto do morro e UFSC. A questão é: quanto será que vai custar a passagem? Alguns estudiosos do sistema de mobilidade já indicaram que com o mesmo valor seria possível colocar várias linhas novas de ônibus para atender a população do Maciço, com a vantagem de ter vários pontos de parada e caber muito mais gente. No Rio de Janeiro um projeto muito parecido foi implementado no Morro do Alemão e o resultado é que o Teleférico de lá só tem servido para os turistas.

Oremos!

Esse é um debate extenso e cabe a nós, população da Grande Florianópolis, conhecer melhor as propostas e participar ativamente das decisões que tocam as nossas cidades. Nós, do Movimento Passe Livre, estamos de olho e temos uma boa memória. Ao lado do povo lutamos para conseguir um transporte mais digno e uma cidade mais justa. Nós temos memória e não nos deixamos enganar com esses sermões fuleiros do prefeito que só quer é garantir o lucro das empresas de transporte, já que o grande Deus desses caras é o dinheiro!

 

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