direito à cidade, manifestação, reportagem

[Sexta 07/02] Somos Todos Amarildo!

Essa sexta-feira, dia 07, convocamos todos e todas para participarem da marcha por terra, trabalho e teto e em defesa da ocupação Amarildo de Souza. A concentração será às 9hOO da manhã em frente ao Koxixos da Beira-mar! Toda solidariedade aos/às lutadorxs da Amarildo! Seguimos em luta por uma vida sem catracas, sem latifúndios e sem despejos. Se morar é um direito, ocupar é um dever.

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Ocupação Amarildo recebe apoio de organizações e da população na luta por moradia e justiça social

Matéria de Arine Pfeifer Coelho, publicada aqui pela Rádio Campeche

O que nos dá bastante força é que o povo tá do nosso lado”, diz Marlene, moradora da ocupação, satisfeita com o resultado da panfletagem feita no calor da manhã de quinta-feira no centro da cidade. Ela conta que os panfletos foram bem recebidos, com muitas manifestações de apoio. “Só um ou outro diz que é contra a ocupação”. A boa recepção nas ruas, mesmo com toda a pressão contrária dos principais jornais e emissoras de rádio e tevê do estado, não chega a surpreender. A falta de moradia e o peso do aluguel sobre os ganhos da família são problemas cotidianos para milhares de habitantes de Florianópolis, especialmente para a parcela mais pobre da população.

Muitos são trabalhadores vindos de vários lugares do país para incrementar a mesma construção civil que tem gerado tanta riqueza para os empresários do setor nos últimos anos. São também diaristas, faxineiros e atendentes de hotéis e pousadas, garçons, vendedores ambulantes, jardineiros e mesmo quem perdeu o emprego e tem que se virar em biscates: gente que trabalha duro para garantir o dia a dia e para quem é difícil pagar os valores dos aluguéis na cidade. A maioria precisa percorrer longas distâncias diariamente porque não consegue o dinheiro necessário para morar perto do trabalho. Sem esses trabalhadores, boa parte dos empreendimentos de Florianópolis não teria como funcionar. Entre eles estão os acampados da Ocupação Amarildo, que a imprensa tem chamado de “vagabundos”, às vezes por meio de supostas mensagens de seus “leitores”.

Também se diz muito que essas pessoas vieram “de fora”, como se vir de outra cidade, estado ou até país fosse uma novidade em Florianópolis.  “A própria RBS veio do Rio Grande do Sul”, comentam os acampados. Também não são daqui alguns dos empreendedores de Jurerê Internacional e do Costão do Santinho que têm interesse na área, antes desabitada, de 600 a 900 hectares. Até mesmo o autodeclarado dono das terras,  Artêmio Paludo, veio de Seara, cidade do oeste de Santa Catarina que deu nome à fábrica de embutidos do empresário.  Na Ocupação Amarildo, repetindo o que acontece em todas as regiões de Florianópolis, tem gente que veio de muitos lugares.

Tem até quem está só de passagem: um grupo de 53 índios kaingang que há dez anos vêm do norte do Rio Grande do Sul, onde fica sua reserva, vender artesanato. Este ano eles não conseguiram com a prefeitura um lugar para ficar durante o período. “Nós sempre vivemos assim, viajando pra outros lugares e voltando pra casa. A gente sobrevive do artesanato. Quando a gente chega aqui, dizem que viemos de fora, que não tem lugar pra gente, mas a gente já estava aqui muito antes dos colonizadores. Somos os nativos, e não temos lugar pra trabalhar. Então, a gente tá aí, junto na luta, em busca de um ponto de referência aqui na cidade”, explica o cacique Perokan.

E a luta vai agregando muitos outros. A dimensão do problema da moradia fica clara no próprio crescimento da Amarildo. Em um mês e meio, o número de famílias acampadas na área passou de 60 para 725. “Todos os dias chegam famílias novas. Algumas vêm com os movimentos sociais, outras vêm espontaneamente”, conta Pépe, um dos organizadores da ocupação, que faz parte do MST. Sim, há movimentos sociais e partidos no apoio e organização do acampamento. Não são apenas os grandes empresários e ruralistas que se organizam no Brasil para manter privilégios seculares, como o latifúndio e a regularização de terras griladas. Foi por causa da organização popular que a moradia se tornou um direito constitucional na década de 1980, e é a força desses movimentos que impulsiona a concretização desse direito. Deles fazem parte não apenas quem precisa de moradia, mas todos que lutam por uma sociedade mais justa.

Por isso, na semana passada a Ocupação Amarildo recebeu o apoio formal de 36 entidades, entre sindicatos, centrais sindicais, partidos políticos, movimento estudantil, Brigadas Populares, que formaram um Comitê de Solidariedade. E as contribuições continuam a aparecer. 20 professores da UFSC estão montando em conjunto com os acampados um projeto de educação. Alunos e professores de teatro da UDESC ajudam a promover jornadas culturais, com música, teatro, cinema e brincadeiras para as crianças. Agrônomos e agricultores se juntam para planejar a produção sem agrotóxicos que vai abastecer a ocupação. Também chegam doações de comida, sementes, mudas de hortaliças, livros, lonas.

“As doações são importantes neste primeiro momento, mas não queremos assistencialismo. Nós queremos Terra, Trabalho e Teto, o que significa soberania alimentar e fonte de renda”, esclarece Rui Fernando, um dos coordenadores da ocupação.  “Aqui não vai haver uma favela, como andam dizendo na imprensa. Já existem 71 comunidades pobres em Florianópolis. Nossa proposta é de assentamento”.  A terra ali é própria para a agricultura e a localização torna viável a comercialização de produtos agrícolas no norte da ilha, que seria a principal fonte de renda dos moradores da Amarildo. A ideia é produzir sem o uso de venenos e adubos industriais, em cultivos orgânicos.

A maior parte da área foi desmatada na década de 1990 pelo suposto proprietário para a produção de camarões, que não deu certo. Para preservar o que sobrou de mata nas bordas do terreno, está entre as regras da ocupação a proibição de cortar árvores nativas e madeiras de lei. “Na semana passada nós recebemos os parabéns da polícia ambiental, que veio vistoriar o acampamento”, destaca Rui. Os barracos utilizam apenas bambus, cujo corte é permitido por ser uma espécie exótica, poucas tábuas e sarrafos que vieram de fora e lonas. “As melhores são as de outdoors”, explica Pepe, “muito mais resistentes ao vento que as lonas pretas, e refletem a luz do sol. A falta de lonas está entre as nossas principais dificuldades”.

O barraco da Dona Mara, de 72 anos, quase voou na última tempestade. Ela conta que agora vai receber a ajuda de outros moradores para pregar uns reforços na estrutura e evitar os estragos do vento: “Todo dia que a gente acorda, a gente aprende coisas diferentes”. A solidariedade é um dos aprendizados cotidianos para quem vive na Ocupação Amarildo, onde as tarefas são todas compartilhadas: o preparo das refeições coletivas, a segurança, o cuidado com os pequenos, a elaboração das regras de convívio, que são definidas em assembleias semanais das quais todos os moradores podem participar.

Os barracos são mais ou menos do mesmo tamanho, formando duas grandes fileiras nas bordas da rua principal, mas não são iguais. Uns têm bandeiras variadas, outros vasos com plantas ou detalhes em bambu e lona colorida. Dentro deles, grupos pequenos conversam e dividem a sombra, o chimarrão, o café, as esperanças. “Aqui tem gente de muitos lugares, de muitas religiões, de muitos movimentos”, diz Pepe. “Todos juntos, na luta”.

Na ambição imobiliária dos empreendedores, a área da Ocupação Amarildo seria um lugar de moradias de “alto padrão” em volta de um imenso campo de golfe, esse esporte de elite que exige grandes e verdes gramados com alguns buracos e bandeiras além de, é claro, carregadores de tacos, para que os jogadores não se cansem à toa. “Os carregadores andam quilômetros pelo campo levando sacolas com 10 mil reais em tacos”, lembra Pépe. “É geração de emprego”, gostam de dizer os empresários.

Nesta sexta-feira, dia 7 de fevereiro, às 13 horas, uma audiência de conciliação vai reunir no Fórum de Florianópolis empresários e acampados para tentar definir o futuro da área da Ocupação Amarildo.  Os moradores esperam juntar nas ruas todos os apoios recebidos neste mês e meio de ocupação. A concentração acontece em frente à Assembleia Legislativa, e todos estão convidados a participar. A Rádio Comunitária Campeche também vai estar lá. Como diz o Pépe: “Nosso direito à vida não precisaria de qualquer Constituição para ser respeitado. Bastaria abrir os olhos e respirar para perceber que somos todos seres humanos. Mas no capitalismo precisamos lutar pela vida. Amarildo vive na luta do povo!”.

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