Mulheres e transporte: um debate necessário – Relato

Relato da conversa que aconteceu dia 05 de Setembro às 14hrs no bosque do CFH (UFSC) 

Por Camila – Movimento Passe Livre, Florianópolis

   O convite para participar dessa conversa foi feito pelo Coletivo Feminista Somos Pagú, grupo que se reúne na UFSC desde o início do ano e organiza atividades (algumas restritas apenas a participação de mulheres e outras aberta a todos os gêneros) para discutir temas transversais ao feminismo. Participam do grupo mulheres de diferentes organizações e tendências políticas.

    Compareceram a atividade pouco mais de 10 mulheres, sendo que éramos 3 militantes ativas do MPL. Nos apresentamos falando a organização que cada uma fazia parte e também aquilo que a gente mais odiava no transporte da nossa cidade. Já nesse momento surgiram algumas questões relacionadas a condição feminina, a exemplo dos assédios em espaços públicos. Foi solicitado que eu fizesse uma fala inicial que ajudasse a levantar alguns pontos para o debate. Comecei falando sobre os momentos em que se levantou a discussão de gênero dentro do Movimento Passe Livre e sobre as resistências que encontramos dentro do movimento. Relatei que essas discussões se deram em três eixos diferentes: (1) Reflexões sobre como as desigualdades de gênero se reproduziam dentro do próprio movimento a partir, por exemplo, da divisão sexual das tarefas; (2) Debates sobre como atuar frente a denúncias de violações e agressões machistas que ocorrem dentro de nosso espaço de atuação política; (3) Discussão sobre direito à cidade a partir de um recorte que leve em consideração a própria experiência das mulheres no espaço urbano. Relatei que infelizmente o movimento não tinha avançado muito neste terceiro ponto – com exceção de algumas contribuições pontuais, como por exemplo o texto da Flora [1] – mas que existe bastante vontade das mulheres do MPL de aprofundar a temática. Quando fui convidada para participar desse debate conversei com algumas militantes de outras cidades para pedir indicação de textos sobre o tema e isso acabou sendo tão estimulante que criamos uma Wiki para armazenar esses materiais [2]. Apresentei no espaço que a nossa discussão poderia ter por objetivo dar primeiros passos na direção de pensar a cidade e a mobilidade urbana a partir de um recorte feminista, que leve em consideração a experiência feminina, bem como as catracas que se colocam no mover da mulher pela cidade. Concordamos que esse debate contribuiria tanto para o MPL – inserindo transversalmente a questão de gênero no debate do urbanismo – quanto para o Somos Pagú – enriquecendo a perspectiva feminista com a discussão sobre o direito à cidade.

   Para dar elementos ao debate citei algumas pesquisas sobre mobilidade que tive acesso e que traziam alguns dados recortados pelo gênero. Uma delas, produzida pelo IPEA, destacava as necessidades específicas das mulheres de baixa renda que são responsáveis pela subsistência familiar [3]. Para conciliar as atividades da múltipla jornada, essas mulheres fazem mais viagens, porém são trajetos mais curtos e em horários e itinerários distintos. A mesma pesquisa indicava que as mulheres também usam com mais intensidade o transporte coletivo no Brasil, além de andarem mais a pé. O seguinte trecho do relatório do IPEA me pareceu particularmente interessante, pois insere a questão da tarifa, inimiga direta da nossa luta:

Muitas mulheres que têm como ocupação principal o trabalho doméstico têm de fazer mais de duas viagens por dia e, por isso, veem limitadas suas oportunidades de trabalho, pois têm que pagar mais que duas tarifas para chegar ao local do emprego.”

catraqueira 2

   A pesquisa conclui que o sistema de transporte não atende às necessidades das mulheres, pois não leva em conta os padrões de mobilidade desse gênero. Um diagnóstico parecido foi feito por uma professora espanhola que hoje trabalha no planejamento territorial da mobilidade de Barcelona. Traduzo aqui um trecho de um artigo da professora Carmem Miralles-Guasch sobre esse tema:

A mobilidade das mulheres: um modelo a reivindicar:

Diferentes estudos de lugares diversos e distantes demostram que a pauta de mobilidade das mulheres, devido a seus papeis de gênero na estrutura social têm características distintas de seus homólogos masculinos (HANSON, 2010). As mulheres em geral vivem mais perto de seu local de trabalho, o que permite um tempo e um itinerário mais curto, logo a possibilidade de caminhar e usar o transporte público. São características que se dão em cidades distantes cultural e geograficamente entre si, o que reafirma o valor estrutural de tais diferenças. É necessário apontar que essas divergências entre as pautas de mobilidade feminina e masculina estão se tornando mais estreitas na medida em que, cada vez mais, as mulheres incrementam sua presença no automóvel privado, aumentam sua velocidade e a distância de seus deslocamentos. Mudanças que as aproximam de seus homólogos masculinos, em um momento em que, a partir da sustentabilidade e do meio ambiente se aposta em modelos onde elas têm uma grande experiência acumulada (POLK, 2003; 2004).

No entanto, muitas das literaturas feministas sobre mobilidade e gênero valorizam essas mudanças como positivas, baixo o argumento de que essas novas pautas de mobilidade garantem mais liberdade individual e mais inserção laboral e social, conseguindo em parte sanar a marginalização e exclusão sofrida pelas mulheres (BLUM, 2004). De toda forma, esta valorização positiva implica que o modelo masculino (mais velocidade, itinerários mais distantes e mais veículos privados) se percebe como o modelo de mobilidade ótimo, e portanto, o imitável. Nesse modelo, as mulheres incrementam sua participação no mundo exterior na medida que adotam as pautas de deslocamento que caracterizaram aos homens durante todo o século XX (MIRALLESGUASCH,1998).” [4]

   Seguindo esse argumento a professora afirma que as políticas públicas voltadas à mobilidade devem garantir a acessibilidade, evitando segregações e exclusões, mas que esse objetivo não está relacionado nem com velocidades mais altas, nem como distâncias mais curtas, e sim com o fato de chegar a todos os lugares precisos. Por isso, a autora aponta que o planejamento da mobilidade não pode estar restrito ao trajeto binário casa-trabalho-casa, que não corresponde a experiência das mulheres, principalmente aquelas das classes populares que cumprem uma jornada mais diversa que esta nos seus deslocamentos. A partir dessas colocações convidei as presentes no debate a exercer a imaginação e pensar que cidade seria essa que levasse em conta as demandas específicas das mulheres, que contribuísse efetivamente com seu acesso ao espaço urbano. Como a cidade pode responder a tais demandas ao mesmo tempo em que, ao adaptar-se a uma estrutura patriarcal, tenha como horizonte rompê-la?

   Partindo daí entramos em uma discussão sobre a separação entre os espaços públicos e privados, marcada historicamente pelo gênero. Sobre esse tema, copio aqui um trecho de uma monografia sobre mulheres e o uso da bicicleta feita por uma militante do MPL-DF e que também me serviu de inspiração para esse debate:

A mulher da rua é o oposto e a negação do homem da rua, afirmará o autor espanhol Delgado (2007). Se o homem da rua representa o cidadão, o homem público, aquele que se aventura e enfrenta os perigo do ambiente, enfim, a própria representação do sujeito, a mulher da rua representa o que há de mais nocivo: de comportamento duvidoso, de moral duvidosa por se sujeitar a rua, local que oferece riscos não apenas para o corpo feminino, frágil, mas também para sua mente, vulnerável.

Apesar de todos os avanços das lutas feministas, dirá ainda o autor, a socialização das meninas continua marcada pelo medo do público e pelo constante ensinamento de que a rua deve ser evitada:

“Décadas depois da revolução contracultural, as meninas e adolescentes continuam recebendo uma educação sexista, cujas mensagens incluem as que lhes inculcam um medo referencial ante o que está mais além da porta de suas casas, aonde as aguardam perigos muito maiores para elas do que os que aguardam os meninos.” (Delgado, 2007, p.237)

Se aventurar na rua, sob o ponto de vista feminino é, portanto, desobedecer a avisos, se arriscar a enfrentar situações para as quais foram diversas vezes alertadas, lidar com ameaças, com o medo (mais uma vez o medo). (…) Entre essas consequências e regras [de se andar em territórios alheios], que variam em intensidade e formas, uma das mais comumente enfrentada são as “cantadas”, que compõe o que chamo aqui de assédio de rua. Este tipo de assédio é peça chave na constante lembrança do não pertencimento feminino à rua de forma que, nos espaços públicos, elas são, ao mesmo tempo, invisibilizadas enquanto sujeito e hipervisibilizadas enquanto objeto, concluirá Delgado.” [5]

   A pesar da maioria dos casos de agressões machistas acontecerem em casa, as mulheres andam apreensivas nas ruas. Como dito acima pela Leiloca, os assédios no espaço público são constantes lembretes de que aquele lugar não nos pertence. Durante a nossa conversa dezenas de depoimentos foram dados em relação aos assédios e violações sofridas e presenciadas nos ônibus, trens e metrôs. Homens que se aproveitam da cotidiana lotação para se “esfregarem” nas mulheres e para passar a mão no seus corpos sem consentimento, constrangimentos verbais vindos de passageiros e também motoristas e cobradores do transporte coletivo fazem parte dessas histórias. Foram relatados também casos de estupros dentro de ônibus e metrôs, além de constantes flagrantes de homens que ejaculam em mulheres durante as viagens urbanas. Algumas mulheres relataram também que meninas mais novas são alvos comuns desse tipo de assédio: “basta um cochilo durante o trajeto e você acorda com uma mão na sua coxa”. Conversamos sobre o aspecto cultural dessa situação, que muitas vezes é encarada com certa indiferença, contribuindo para que tais violências sejam naturalizadas. Foi citado inclusive um quadro de um programa de humor da TV Rede Globo, em que se retratava abusos no metrô como situações em que as mulheres deveriam “aproveitar” e achar bom [6].

   A realidade dos assédios nos transportes coletivos urbanos é tão frequente que o governo de algumas cidades optou por criar vagões exclusivos para as mulheres. No Brasil, sabemos da existência desses vagões nos metros do Rio de Janeiro, São Paulo e Distrito Federal. Algumas mulheres presentes na conversa relataram que se sentiram realmente mais seguras usando estes vagões, mas que em alguns lugares o uso exclusivo de mulheres não era respeitado e havia pouca fiscalização nesse sentido. Problematizamos a questão, pois se por um lado o Estado está reconhecendo a necessidade de políticas de mobilidade voltadas às mulheres, por outro a opção que se faz com tal medida é a de responsabilizar as passageiras por sua segurança. Ou seja: segrega-se as possíveis vítimas e não os violentadores. [7]

   A pesar das inúmeras histórias sobre assédios e violências, foram também relatados os casos de resistência, em que as tentativas de abuso foram barradas não só pela vítima, como também pelos passageiros que presenciaram a ação. Nesse sentido pensamos que essas são experiências positivas e que a solidariedade entre passageiros, passageiras e trabalhadores/as do transporte coletivo deveria ser estimulada e a reação à violência – que às vezes nem sequer é nomeada como tal – encorajada. Ora, quem deve abandonar o ônibus não são as mulheres que sofrem com os assédios, mas sim os autores de tais violências. Nesse sentido, as/os trabalhadoras/es do transporte coletivo deveriam ser nossas/os grandes aliadas/os. Também foi levantado no debate a própria condição de trabalho das mulheres nesse ambiente e questionou-se quais seriam as demandas específicas das funcionárias que trabalham nos ônibus, trens e metrôs.

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   Por fim, discutimos que o problema da violência no espaço urbano obviamente não é um problema exclusivamente enfrentado pelas mulheres. Como pensar uma cidade mais segura para além da lógica de policiamento e vigilância? Uma das perspectivas apontadas é de que os centros urbanos deveriam ser “mais vivos”, pois nos sentimos mais seguras onde há mais gente, onde há movimentação de pessoas. O transporte coletivo noturno é um elemento central para garantir o acesso irrestrito à cidade e faz parte das demandas femininas. Não à toa uma das palavras de ordem surgidas durantes as manifestações de junho/julho dizia: “Não sou Cinderela! Quero transporte até depois da meia-noite!”.

A conversa foi muito produtiva, pudemos compartilhar ideias, perspectivas, informações e experiências. No entanto, sentimos que estamos apenas iniciando o debate e que ainda nos falta muitos elementos para imaginar que cidade e que transporte seriam esses que contribuíssem para relações mais igualitárias no espaço urbano. Para dar continuidade as discussões sobre o tema fizemos as seguintes propostas:

-Aproveitando o evento “Fazendo Gênero” na cidade, chamaremos as participantes a uma segunda conversa sobre o tema. Ela será aberta a todos os gêneros e terá como objetivo levantar novos pontos para a discussão e aprofundar aqueles que já foram citados. A atividade vai acontecer no dia 18 de Setembro às 18h00 na sala 302 do CFH (UFSC).

-Pensar um seminário mais aprofundado sobre o tema, convidando outros grupos feministas do estado.

-Articular um diálogo com o SINTRATURB sobre a importância do apoio deles nos casos de assédio dentro dos ônibus.

-Produzir materiais (adesivos ou panfletos) sobre os assédios dentro dos ônibus e sobre a necessidade de reação e solidariedade entre os passageiras/os.

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Notas:

[1] Texto da Flora (MPL-Floripa): http://acanhota.wordpress.com/2011/05/26/por-uma-vida-sem-catracas-e-sem-machismo%C2%B9/

[2] Wiki das catraqueiras: http://http://catraqueiras.xanta.org/

[3] Gomide, A. A. (2003) Transporte urbano e inclusão social: elementos para políticas públicas. IPEA, TD n. 960, Brasília, DF.

[4] Tradução livre do artigo “Las divergencias de género en las pautas de movilidad en Cataluña, según edad y tamaño del municipio”, de Carmen Miralles-Guasch. Pode ser acessado em: http://www.revistas2.uepg.br/index.php/rlagg/article/viewArticle/3254

[5] Pantoja, Leiloca. (2012) Nem vítima, nem algoz: mulheres de bicicleta em Brasília. Monografia apresentada para obtenção de Bacharel em Ciências Sociais com habilitação em Antropologia. UnB.

[6] Sobre a repercussão do quadro “Metro” do programa Zorra total ver matéria publicada na Folha de São Paulo: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/994136-jovem-assediada-no-metro-ataca-quadro-do-zorra-total.shtml

[7] Artigo de Nádia Lapa de critica aos vagões exclusivos implementados no metrô de São Paulo: http://www.cartacapital.com.br/blogs/feminismo-pra-que/vagao-exclusivo-para-mulheres-parece-uma-boa-ideia-mas-nao-e-8235.html

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