Tarifa Zero na Vila do Arvoredo

por Carol Cruz

As pessoas acham engraçado, mas eu realmente sonho com o dia que teremos tarifa zero. Fico me imaginando sair tranquilamente de casa, caminhando até um ponto de ônibus que realmente proteja do sol e da chuva, que tenha bancos confortáveis e no lugar das propagandas os horários e itinerários dos ônibus que passam por ali. Eles poderiam ser até superdivertidos, temáticos, com placas solares para garantirem a energia dos painéis interativos ou com contagem regressiva para o próximo ônibus. São tantas possibilidades. Minha imaginação voa: como seria uma cidade sem carros particulares? Uma cidade de calçadas largas, aonde as vias fossem imensas ciclovias?…

A luta que o Movimento Passe Livre faz pela Tarifa Zero, embora implique em exigir que se devolva o controle e responsabilidade do transporte coletivo ao poder público enquanto um direito social, é uma luta que extrapola o simples fato do usuário não ser mais o único a pagar o custo do transporte por meio da tarifa. Quando falamos em tarifa zero estamos falando em levar até as últimas consequências o nosso direito de ir e vir. Estamos levando muito a sério nosso direito de participação política na construção e cuidado da nossa cidade. Estamos falando em uma cidade mais justa, mais livre e mais democrática. O que sustenta nossa bandeira Tarifa Zero é a vontade de mudar tudo, como diz nosso amigo Lúcio Gregori. E tudo nos diz que não somos os únicos.

Neste sábado, 4 de junho de 2011, passamos mais uma tarde na sede da Associação de Moradores da Vila do Arvoredo, a AMOVILA. Juntos estamos planejando nosso ônibus tarifa zero e em nossos encontros aproveitamos para trocar ideias sobre a cidade que queremos (leia aqui sobre nosso primeiro encontro). Mas que cidade é essa? Nós a conhecemos? Neste encontro, para começo de conversa, nos debruçamos sobre o mapa de Florianópolis, afinal são tantos os lugares em que nunca estivemos. Cada um, então, escolheu um que gostaria de conhecer. Teve gente que quis ir para bem longe, ao extremo sul da ilha, como Seu Nivaldo que queria conhecer Naufragados. Outras pessoas ficariam pelo norte mesmo, mas num lugar que parece outro mundo como é Jurerê Internacional. Celina e Marlete, também moradoras da Vila, queriam ver as pessoas chegando e partindo da ilha no aeroporto Hercílio Luz. Seu Eurico, tesoureiro da associação, é um homem sério e queria ir até o Alto da Caieira fiscalizar as obras inacabadas do PAC.

A maioria de nós não conhece esses lugares porque são tantas as dificuldades para chegar até eles, a mobilidade em Floripa é tão ruim, que desistimos antes mesmo de sair de casa. Como para transformar a cidade é preciso conhecê-la, e nenhum de nós do MPL mora na região dos Ingleses, resolvemos então listar os principais meios de transportes utilizados e quais o maiores problemas para locomoção que enfrentam os moradores e moradoras da Vila do Arvoredo. E não são poucos.

Para começar o ponto de ônibus mais próximo fica muito longe, o que dificulta mais ainda para as pessoas demais idade, o pessoal que chega com compras, ou qualquer um que chegue num dia de chuva. Seu Eurico conta que para chegar mais rápido vai de bicicleta até o ponto, mas nunca encontra um local apropriado e seguro para deixá-la. Eles contaram também que a sinalização dos terminais e ônibus é muito ruim e por isso algumas vezes já pegaram ônibus errado, ou precisaram rebolar para orientar os turistas estrangeiros que frequentam o local. Toda essa falta de informação confunde muito as pessoas, que ficam inseguras para irem a lugares que não conhecem bem. É preciso melhorar muito por aqui, mais ônibus, especialmente nos horários de pico para ninguém ir em pé. Mais pontos de informação, calçadas adaptadas, linhas circulares, paradas de ônibus mais próximas entre muitas outras coisas.

Conversando constatamos que todas essas pequenas melhorias são fundamentais para que de fatos todos tenham acesso à cidade. Pois não são só os deficientes físicos e idosos que se beneficiam com uma boa calçada. Assim como não são só os atuais usuários do transporte coletivo que se beneficiariam com mais ônibus, faixas exclusivas, menos carros e menos poluição nas ruas. O bom funcionamento da cidade depende disso. Algo tão essencial como o transporte público não poderia estar nas mãos de quem precisa lucra com isso. E essa foi a deixa para falarmos da tarifa zero.

O pessoal ficou muito curioso. Querem saber como funciona, quem vai pagar, se existe alguma cidade brasileira com tarifa zero, estão cheios de perguntas. Mas o tempo foi pouco, e essa conversa ficou para um próximo encontro. Para encerrar eles nos ajudaram a fechar um questionário que vamos realizar para saber o que as 168 famílias da Vila andam sentido em relação à mobilidade urbana de Florianópolis. É uma investigação modesta a que pretendemos fazer, mas nunca se fez um levantamento deste tipo na cidade. Provavelmente é por por isso que o sistema de transportes é tão ineficiente. A definição dos trajetos e horários é feita sem um estudo sério, parece sair da cabeça de quem nem pega ônibus.

Esperamos que este questionário nos ajude a fazer nosso ônibus tarifa zero. É um pequenino passo para nós que queremos mudar tudo, mas já está valendo a pena. Conhecemos companheiros e companheiras valiosas na luta pelo direito à cidade. Esperamos projetar juntos uma cidade na qual todos terão direito ao transporte para ir e vir livremente para onde quiserem. Sobre tudo para voltar para sua casa, uma bonita casa, em algum bairro tranquilo de uma cidade que existe para todos.

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