Cozinhando com política: Nosso almoço do 1º de Maio.

Este ano o dia 1º de maio, dia dos trabalhadores e trabalhadoras, caiu num domingo ensolarado. E o Movimento Passe Livre foi comemorar junto com Associação Comunitária da Vila do Arvoredo, num almoço realizado na própria sede da associação. No cardápio: risotos, frutas, moradia popular, tarifa zero e memória das nossas lutas.

A Vila do Arvoredo fica no balneário dos Ingleses -bairro do Norte da Ilha de Santa Catarina que, a partir de meados dos anos 70, passou a crescer e ser alvo da especulação imobiliária que hoje já avançou para outras regiões da grande Florianópolis, tendo se tornado um dos pilares da própria sobrevivência econômica da cidade. Hoje, o distrito de Ingleses conta com cerca de 70 mil habitantes, quase um quinto da população municipal.

No final da Rua do Siri, na esquina da qual fica a Escola Básica Municipal Gentil Mathias, localiza-se a Vila do Arvoredo. Tal rua originou o outro nome pela qual ficou conhecida a comunidade, Favela do Siri. Mas seus moradores não gostam deste nome, consideram-no pejorativo. De certa forma, ele simboliza todo o preconceito que enfrentam quando procuram um emprego, matriculam suas crianças na escola ou requisitam uma consulta no posto de saúde. São privados destes direitos pela dificuldade em comprovarem sua residência. Diferente do Resort Costão do Santinho, Costão Golf e outras de tantas belas casas, situadas na própria rua do Siri – nas quais muitos deles trabalharam na construção – que ocupam a mesma área de preservação permanente (APP) que eles.

A ocupação, que fica sobre as dunas, começou na década de 1980 com o aquecimento do ramo da construção civil na região. Muita gente de cidades do interior e de outros estados veio para trabalhar. Para fugir do aluguel compravam terrenos postos a venda por algumas famílias nativas, que, donas de terrenos na região, começaram a ser interessar em vender áreas fora de sua propriedade, na direção das dunas – áreas de APP. Como frisa seu Nivaldo, membro da associação e hoje presidente do Conselho Comunitário dos Ingleses (CCI), a maioria dos moradores da comunidade não ocupou, mas sim comprou seu pedaço de terra. Pagavam IPTU e tudo

Mas conviviam diariamente com a dificuldade de se obter água e luz regularizadas, além de acesso a direitos como escola, creche e atendimento público de saúde. Além disso, ônibus na região passava apenas em dois horários por dia. Quando chovia, alagava tudo – afinal, algumas casas foram construídas bem em cima dos lagos que se formavam pelo acúmulo de chuvas das dunas, posteriormente aterrados.

Além disso, começou a fama que a comunidade era habitada por bandidos, trazendo a violência e a venda de drogas para a região. Como qualquer um que visita uma comunidade de baixa renda e senta para conversar com seus moradores, sabe que a maioria das pessoas que vivem por lá não está envolvida com este tipo de atividade. Pelo contrário: tinham empregos na região e realizavam serviços por preços mais baixos ou mais qualificados do que era encontrado antes por ali. E, ainda por cima, fica difícil de imaginar que os consumidores de entorpecentes, muitas vezes com carros excelentes, que passam pelo pela comunidade, não seriam habitantes do distrito dos Ingleses…

Por essas e outras, a comunidade cuja população variou entre 230 famílias, no início da década de 2000, para as 168 do último cadastro sócio-econômico da prefeitura, sofreu diversas modalidades de preconceito. O preconceito é uma atitude que deliberadamente escolhe traços de um determinado grupo social para exagerar e usar contra ele, sem que um contato real seja efetivado para que outras ideias possam surgir. No caso da Vila do Arvoredo, jornais de bairro como o ridiculamente direitista “Ilha Capital” e também habitantes da região realizaram verdadeiras campanhas difamatórias. Mesmo o ex-governador Luiz Henrique da Silveira concedeu entrevista televisiva protegendo grandes empreendimentos e culpando exclusivamente a comunidade por uma suposta poluição na praia dos Ingleses – este vídeo ficou conhecido não só em Florianópolis, deixando claro a preferência do governador pelos acusados de compra de licença ambientais fraudadas no conjunto de ações da polícia federal conhecido como “Operação Moeda Verde”, e sua inclinação em criminalizar todos os que não se envolvem no modelo predatório de desenvolvimento implementado no estado na últimas décadas, cuja cereja no bolo seja a criação do absurdo código ambiental estadual.  

O resultado mais forte desta verdadeira orquestra da difamação foi a existência de abaixo-assinados de habitantes de regiões próximas as quais a comunidade seria transferida a partir de projeto de habitação da prefeitura rechaçando tal medida, o que atrasou em alguns anos a transferência das famílias do lugar insalubre no qual moram hoje. Até por que, além dos problemas de saúde causados pela residência literalmente nas dunas, há o fayo de que estas avançam na direção de onde estão as casas. Os moradores nos contaram que o avanço já engoliu ruas inteiras, obrigando que as casas, geralmente de madeira, fossem desmontadas e reconstruídas algumas centenas de metros à frente. Atualmente, a própria sede da associação de moradores corre o risco de ser engolida pela areia em movimento, já muito próxima da porta – a solução encontrada será quebrar parte da parede oposta, para abrir uma nova entrada pela rua paralela.

Para chegar até o Arvoredo – não de carrão, mas de transporte coletivo -, como é para qualquer lugar em Florianópolis num domingo, demora. Um ônibus perdido e chegamos com no mínimo uma hora de atraso. Dois ônibus e uma caminhada de uns doze minutos. O ponto mais próximo na verdade é bem longe, nossa sacola de compras cheia de tomates, cebolas e pimentões ficou ainda mais pesada. Enfim chegamos na sede da associação comunitária. Lá já estavam começando a sua reunião mensal, e nós fomos, aos poucos, nos inteirando da sua luta diária por direito à cidade. Entre seus pontos de pauta estava a manutenção dos gatos de luz, a questão do lixo e da educação ambiental entre os moradores e, princialmente, os meandros do projeto de regularização fundiária, transferência e reassentamento da comunidade, previsto para um terreno na entrada dos Ingleses, comprado da Casan pela prefeitura. O início da construção está emperrado por que depende de financiamentos do governo federal, via Programa de Aceleração de Crescimento (PAC), empacados há alguns anos já. Somada ao preconceito, a inoperância administrativa e a lábia de políticos profissionais é outra faceta que vem atrapalhando a vida da comunidade e tornando a espera pelo direito mínimo a uma casa decente algo angustiante – sentimento que outras comunidade de baixa renda em Florianópolis, como a Ponta do Leal, também partilham.

No final eles nos cederam um espaço para que pudéssemos nos apresentar e falar um pouco da nossa proposta de construirmos juntos uma linha piloto tarifa zero. Eles gostaram da ideia, e o mais importante demonstraram acordo político com a Tarifa Zero! Na hora já nos deram sugestões de como poderemos coletar as informações para planejarmos os trajetos e horários, e nos informaram que plenamente possível que um ônibus entre na comunidade uma vez que costumam circular por ali grandes caminhões por conta do galpão de reciclagem. Surgiu até a ideia de que se leve a proposta de uma linha permanente que entre no Arvoredo. Agora só precisamos ir acertando os detalhes sobre as oficinas, a coleta de informação e a construção da linha.

Chegou a hora em que precisamos parar para o almoço, o cheirinho estava há tempos tentando o pessoal, que já devia estar com fome. Aproveitamos para irmos nos conhecendo. Depois do almoço demos uma volta pelo Arvoredo com a criançada, teve até quem rolasse pelas dunas. A vila do Arvoredo conserva um clima de interior, talvez por causa da origem do seus moradores. Todo mundo meio que fica na frente de casa, cumprimenta quem passa, a crianças também estão todas lá brincando, jogando bola, soltando pipa. De vez em quando passa uma galinha ou outra. Mas esse clima contrasta com as casas pobres, na maior parte de madeira, telhado de Brasilte – por serem consideradas irregulares muitas vezes são impedidos de fazer alguma reforma ou reparação nas suas casa. Enfrentam ainda a ameaça do avanço das dunas, que já encobriu algumas ruas.

Sentamos então pra tomar um cafezinho com alguns dos diretores da associação, e eles nos contaram a história de como toda sua luta começou, bastante resumida nos parágrafos acima. Mas, de tanta coisa para contar, paramos antes da história chegar a 2007, ano a partir do qual a associação tornou-se mais organizada e combativa, tendo sido reconhecida tanto nas lutas da comunidade quanto nas discussões acerca do plano diretor municipal. Combinamos de continuara conversa no nosso próximo encontro, daqui a 15 dias, até por que faltou contarmos um pouquinho da nossa luta, que não deixa de ser a mesma: a luta pelo direito à cidade!

Por enquanto, ficam sugeridas duas matérias sobre a comunidade realizadas para o Centro de Mídia Independente, sendo uma delas escrita pelos próprios moradores:

http://www.midiaindependente.org/es/red/2008/11/434067.shtml

http://prod.midiaindependente.org/pt/blue//2008/11/434120.shtml

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