ônibus

crônica: Dentro da cabeça esperando o ônibus

Leonardo Alves da Cunha

Vai, eu acredito. Um dia chega. Mas eu tô cansado. Sei, sei. Demora. Deixa qualquer um doido. E ainda por cima tá chovendo. Eu queria deitar. Mas tem um monte de gente sentada bem do meu lado. Na real, tá apertado. Sabe quando você aperta um perna contra a outra, pra caber mais gente? E é incômodo – o banco são duas barras de metal e entre elas tem um espaço. A bunda fica no meio. Fica bem no espaço vazio. Meio que suspensa no ar. Inexplicável, pois é. Assim mesmo. Cara, tem uma poça gigante bem na frente do ponto. Algum filho da puta vai passar em cima d’água pra sacanear. Se fizer, eu taco pedra.

Você disse que não vai demorar. Eu tô esperando faz meia hora. Saco. “Quer me foder, me beija”, um intelectual disse. Tem um cara do meu lado escutando música alta. Tá de fone, mas tá tão alta que parece dentro da minha cabeça. Mas aí fica aquele chiado também, por que o fone tá no ouvido dele, não no meu. Porra, o cérebro dele já deve ter derretido.

Tem um casal se amando do meu lado. Você disse que não ia demorar. Eles ficam se amassando e rindo. Pô, ela gargalha que nem gárgula. Dá medo. E enjôo – cada um tem um perfume forte, destes meio caros. Perfume assim eu não entendo. Tão querendo esconder o que de mim? Todo mundo tem sovaco e nem por isso um é melhor do que o outro.

Chegou. Até que enfim! Bunda quadrada, mas tá de boa. Dá um alívio. Alívio às vezes é pelo motivo errado. Tem um lugar no fundo. Um só. E fica um monte de gente amontoando na catraca. É mole? As janelas todas fechadas. O povo não tem medo de meningite? Eu vou pro fundo. Nem adianta ficar me olhando assim. Esbarro mesmo. Tira essas sacolas. Sai, sai!

É meio clichê, mas tem um monte de gente com cara de cu no busão. Pô, com cara de velório ou de quem levou uma surra. Deve doer alguma coisa na vida. Tô sempre reclamando pra mim e pros meus conhecidos, mas olho pro mundo com raiva e desprezo. Com desânimo, não. Dá vontade de enfiar o dedo no nariz e limpar grandão o salão. Será que isso ainda choca? Soltar um peido sonoro. Ou tenho que reclamar bem alto do custo da vida? Todo mundo acha que tá caro, mas quando alguém fala fica chato.

Sozinho, eu desvio o olhar. Chego a perder o fôlego. Me dá um desespero. Viro a cara para a janela e pronto.

Lá fora tá no auge do lusco-fusco. Garoa e lusco-fusco, a pista engana. Não dá pra ver nada pela janela. Fiquei bem na última fileira de bancos, com 5 assentos juntos. O ônibus faz a curva e o cara tem que se esticar todo para se agarrar num daqueles canos. Quero chegar em casa. Lá fora não dá pra entender nada. Só uma ou outra palavra dos luminosos. Na parede do ônibus tem colado um poema dos “Poetas Livres”. Que merda. Parece aula de português na quinta série. Pô, eu morria de vergonha se fosse parente meu escrevendo estas coisas. Não merece nem parede de banheiro.

Engarrafou. O povo começa a suar, desanimado. Tá ficando comum isso por aqui. A maioria diz que faz parte. Querem viaduto. E duplicar. Essas coisas que fazem o bolso de alguém. Vai afundar. Enquanto isso, a gente empaca. Que nem mula. Mas acalma. Daqui a pouco relaxa, estamos perto do ponto do shopping. Metade desce lá. Como é que pode? Um dia eu chego. Vou pra mais longe na cidade, pela pista dupla.

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