atividades

Deriva pelas revoltas da catraca

clique na imagem para ampliar.

O centro da cidade varia. Cedinho, de uns poucos vão chegando para trabalhar. O barulho é o do levantar portões. Embaixo de marquises alguns moradores despertam, dobram seus cobertores, reúnem seus pertences e somem na multidão, que toma conta do calçadão. O centro é tomado. É tão barulhento que se esquece seu som. É o fluxo do dia. Milhares passam. Quem dera houvesse olhar para tanta gente e não câmeras. Mas o dia passa na disputa de um espaço na calçada, um assento no ônibus, um lugar na fila, quem sabe não passar despercebido. À noitinha as lojas se fecham, as ruas esvaziam-se, tornam-se alaranjadas sob a luz de mercúrio. Tudo muito bonito e silencioso. Redescobre-se as fachadas, as distintas lajotas, as pichações. Tudo muito bonito e soturno. À noite só vagam os ninguéns. “Há risco”. Já não há tabernas de resistência e as poucas travessas fecham cedo. São poucos que não se consomem até então.

Aos finais de semana as coisas mudam um pouco. Dizem que sábado de manhã o movimento se mistura em muvuca no mercado público, mas entre muitos laialaias já não se sabe o que pensar de tudo isso. Final de tarde, e as ruas vazias outra vez. Embora à luz do dia, tão incertas quanto a noite. A sensação de quem passa é de não pertencer, de não se apropriar. Essa rua não é minha nem quando estamos a sós, nem quando estamos nós tantos.

Mas o centro da cidade varia. Há momentos em que aglomeração não é multidão, e as ruas não são passagens. Preenchem-se de desejos e motivos. E aí elas são nossas. Contra um aumento da passagem, contra um presidente ditador, contra um plano diretor verticalizado e ganancioso, em solidariedade aos palestinos, aos movimentos sociais campesinos, quando no carnaval o encontro de batuqueiros ecoa num centro vazio.

Essas manifestações brotam aqui e ali, de vez em quando. Às vezes com objetivos muito claros, às vezes só vontades muito fortes. Encontram-se lá sem certezas, não se sabe o que pode acontecer. Planejamentos e convicções até ajudam na baliza, mas o rumo é incerto.Algumas delas deixaram marcas na memória da cidade. Uma espécie de memória, porque as ruas nos parecem intactas diante de seu desgaste natural – algumas partes do centro ainda são vazio enquanto a manifestação passa – tipo de coisa que um google earth não pode captar. Se falarmos aqui das Revoltas da Catraca, ocorridas em 2004 e 2005, é bom nos perguntarmos: qual a melhor maneira de lembrar coletivamente aqueles eventos?

A Babilônia Filmes, coletivo autônomo de produção de vídeos, convida para uma atividade de lembrança bem específica: uma deriva. Para nós, uma deriva sobre as Revoltas da Catraca consiste em caminhar por todos os pontos importantes para estes eventos, da antiga câmara dos vereadores à catedral, do sindicato dos bancários à avenida Paulo Fontes.

Caminharemos, mas será uma caminhada em que a rememoração está organizada, pois a cada ponto do mapa pararemos e teremos auxílio de quem participou intensamente naqueles momentos para resgatá-los. Por fim, quer momento histórico mais propício para lembrar do que esta semana, que conta com a absurda votação de projeto de lei na câmara dos vereadores que pretende manter o sistema de transporte como está, e com a estréia do documentário “Impasse”, que trata exatamente das manifestações contra o aumento da tarifa este ano e problematiza as dificuldades da mobilidade urbana no município.

Pra quem se interessou, marcamos para 15 hs deste domingo, no sindicato dos bancários (rua Visconde de Ouro preto, 308, Centro). Não se atrase.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s