MPL Floripa

Alex Marchi – “Os bons morrem jovens!”

O homem mais forte que eu conheci morreu. Meu camarada Alex Marchi, esse exemplo colossal de integridade, de dignidade, de conduta coerente com o que pensava e pelo que lutava. Que exemplo fantástico de disposição. Enfrentou durante seis anos um maldito câncer, e perdeu. Perdeu, porque a doença retirou a sua vida. Mas venceu, sem dúvida, ao descansar desse mundo injusto e doentio que ele combateu.

A dor que deixa nos seus amigos e camaradas é tão grande quanto o seu exemplo. Certamente ele se aborreceria de ler essas linhas, e de eu tornar público sobre um pranto interminável e doído, o fato de que ele insistiu para que seu irmão mais novo fizesse um último serviço de mudança no dia seu velório, para pagar os custos do enterro. Não queria deixar qualquer custo para sua família. Nos últimos seis anos, desde que descobriu o câncer, estudou em três cursos diferentes, Ciências Sociais, Economia e Letras, aperfeiçoou o violão, o xadrez, escreveu contos, montou uma pequena empresa de mudanças que sustenta uma família muito trabalhadora, e se envolveu em todas as grandes lutas sociais de sua geração e de seu povo. Foi um incansável militante das Revoltas da Catraca, corajoso, inteligente, sensível, francamente crítico e honesto.

O Alex foi a minha referência em todas as crises políticas. Sabia que se estivesse do seu lado, estaria no lado certo. O que o movia era um senso ético absoluto. Era um homem do coletivo, de uma maneira impressionante, como eu gostaria de ser, e jamais conseguirei. Mas o Alex não era uma referência “política”. O Alex era uma referência humana. Quando desistir era mais fácil, ele jamais se entregou. Quando abandonar a militância, o trabalho, a vida, era o natural, ele fez precisamente o inverso. Encarou a morte com coragem e absoluta racionalidade, fazendo de seu tempo de vida, parte de uma obra que não se apagará no coração e nas mentes daqueles que desfrutaram de sua convivência. No seu velório exigiu que não houvesse padres, nem cruzes, nem “beatas”, por mais difícil que fosse para sua família entender. Até o final, não cedeu a qualquer fraqueza, ou sinal que pudesse aparentar um abalo na sua dignidade.

O Alex nos deixou aos 29 anos. E eu mal posso acreditar. Carregar o caixão com o corpo do nosso Alex era carregar a si mesmo para debaixo da terra. Ninguém termina tal rito a mesma pessoa. Na manhã do dia 29 de agosto de 2008, eu enterrei o homem mais forte que conheci. Enterrei um pedaço da geração das revoltas. Enterrei um pedaço da nossa história. Guardei no peito uma dor imensa que está custando a passar.

Querido Alex, o “little Alex” dos amigos, seus camaradas nesse momento amargam tua ausência física, mas honrarão sempre tua memória, tua luta pelos princípios de uma justiça verdadeira, dos direitos humanos, da igualdade e da liberdade. Querido Alex, presente! Sempre!

Marcelo Pomar
Florianópolis,
31 de agosto de 2008.

“Toda vez que um justo grita, um carrasco vem calar. Quem não presta fica vivo, quem é bom, mandam matar (…). Foi trabalhar para todos, mas por ele quem trabalha? Tombado fica seu corpo, nessa esquisita batalha, suas ações e seu nome por onde a glória os espalha”

Cancioneiro da Inconfidência, de Cecília Meireles.

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