Dá pra ligar o ar-condicionado, por favor?

por d.

São três horas da tarde de uma quarta-feira em Florianópolis, capital de Santa Catarina, novembro de 2006. O ônibus Jardim Atlântico, da empresa Emflotur, sai do Terminal de Integração do Centro (Ticen) para cumprir seu trajeto que segue até o bairro de mesmo nome, próximo à divisa entre Florianópolis e o município de São José.

Os ônibus da Emflotur, e de algumas outras empresas que operam em bairros da área continental da cidade, com exceção da Estrela, são mais estreitos do que os ônibus das empresas que circulam pela Ilha. Não sei se as dimensões totais dos ônibus são menores, mas com certeza a parte interna sim. Os bancos são menores e estimulam a guerra de cotovelos e joelhos por mais espaço. O corredor também é mais justo e dificulta muito a passagem da porta de entrada até a porta de saída. Se você entrar em um ônibus da Emflotur às 18h e ele já estiver lotado, sua caminhada até a porta traseira do ônibus será uma aventura desagradável.

Cada dia deste mês de novembro apresenta um nível de calor ou frio. Chega a parecer que frio e calor escolhem e dividem os dias do mês eles mesmos. Mas particularmente naquela quarta-feira o calor era um exagero. Às três horas da tarde ele ainda estava no seu auge e, dentro de um ônibus apertado, embora não estivesse lotado, ganhava uma dimensão ainda maior. O motorista liga o motor e faz a curva entre o Ticen à ponte Colombo Salles, que tem 1.227 metros e une a Ilha ao Continente. Sobre a ponte o vento resolvia parcialmente o problema do calor, mas foi só terminar seu trajeto que o bafo quente tomou conta. Uma senhora, então, levantou a voz e perguntou ao cobrador:

– Dá pra ligar o ar-condicionado, por favor?

Insular, Transol e Estrela são empresas de ônibus que, na mudança estrutural do transporte em Florianópolis em 2003, com a inauguração do Sistema Integrado (SIT), puseram na rua ônibus sem janelas. Ou melhor, com vidros inteiriços. Assim, as empresas inseriram aparelhos de ar-condicionado dentro dos veículos em busca de bons resultados na opinião pública por conta do conforto que resultaria da novidade. Muito embora seja verdade que a falta de janelas criou algumas situações desconfortáveis. Vez ou outra os aparelhos de ar condicionado resolvem parar. Tecnologia é assim mesmo, sempre pregando peças. E o que acontece em um ônibus sem janelas com ar condicionado desligado em um dia de calor? Ou o que acontece com pessoas expostas ao frio – às vezes o ar fica excessivamente gelado e gotas de água caem em passageiros – e, depois, ao calor em questão de minutos?

Mas aquela senhora também desconhecia o fato de que as empresas de ônibus começaram a mudar de idéia. No início de novembro até resolveram desligar o ar-condicionado que agora julgam ser caros demais. A questão é que com um litro de combustível, um ônibus anda 800 metros se estiver funcionando com o aparelho. Sem o ar-condicionado o número aumenta para 2 a 2,5 quilômetros.

Os empresários do transporte, que até hoje não liberam publicamente as informações dos itens que compõem a planilha de custos, se sentiram prejudicados com a aplicação da tarifa única. A unificação dos preços reduziu drasticamente os preços das linhas mais longas (Norte e Sul), chegando a cair um real. Ao mesmo tempo, as passagens aumentaram cerca de 20 centavos nas regiões centrais, utilizadas por 70%. E, ainda por cima, os empresários admitem um aumento de 500 mil passageiros e passageiras desde então. Não seria o caso de uma planilha aberta e um diagnóstico amplamente divulgado para que a população possa saber se há prejuízo de fato no sistema? E, se há, por que as empresas não deixam o filão que ganharam de presente e sem licitação? O transporte coletivo é um direito essencial e público. Portanto, deveria ser gerido pelo poder público, fiscalizado pela população e sem exclusão alguma – para ser mais exato, sem cobrança de tarifa direta, que separa o povo entre quem pode ou não pagá-lo. Este ônus deve ser encarado pelos que se beneficiam do transporte (empresários, setor imobiliário) e não quem o usa.

Mas a senhora continuava irritada, se abanando com folhas de papel. Voltou a questionar o cobrador, que por sua vez respondeu:

– Que ar-condicionado, senhora? Neste ônibus não tem ar condicionado.

Cobrador é uma profissão ingrata. Ele vive, ou ela vive, de fazer na prática o ato da usurpação do dinheiro do povo para entregar aos cofres das empresas. O cobrador, um jovem de prováveis 20 e poucos anos, negro, camisa com mangas dobradas, complementou:

– Ar condicionado aqui é abrir janela, senhora.

Um rapaz de camisa branca regata, muito suado, se levanta e abre incessantemente as janelas. Outras pessoas comentam em voz baixa a situação. Neste momento um outro passageiro interfere na conversa, em posição de defender a senhora, como se a resposta do cobrador tivesse intenção de ofende-la. Aparentava ter trinta anos, calvo, com o cabelo nas laterais raspado e um rabo de cavalo em tranças. Tinha olhos azuis muito claros e carregava uma mala marrom. Também reclamava do calor. Pudera, com calças compridas, camiseta e camisa preta de mangas compridas.

– Pra que essa grosseria?

– Não é grosseria não, só estou falando que não tem ar condicionado neste ônibus (cobrador).

O homem mudou o tom de sua fala, agora ironizando o cobrador.

– Você deveria avisar seu patrão que é preciso ar condicionado no ônibus. Quem sabe até ganha uma promoção, um aumento.

– (rindo) Mas eu não quero promoção. Eu quero é sair daqui, fazer meu pagode. (cobrador)

Cobrador e motorista riem da situação. De fato, não há culpa nenhuma por parte dos dois. O sistema de transporte de Florianópolis é motivo de revolta e indignação pela decisão da Prefeitura em permitir que empresas privadas administrassem o sistema visando lucro e exploração. Cobradores e motoristas não são porta vozes das empresas, embora existam aqueles que têm interesses em demonstrar fidelidade aos patrões. Da mesma forma, cobrador e motorista não procuraram fazer esta discussão, de que o que acontecia ali naquele momento era o sonho dos empresários e da prefeitura: a cisão do povo. Dividido, o povo é governado com mais facilidade, tende a não se organizar para melhorar sua condição. Não toma iniciativa para modificar a realidade e construir uma nova, que o beneficie e nem ao menos pensa em uma outra realidade muito mais complexa, que envolve questões mais estruturais do que ter ou não um ar-condicionado dentro do ônibus.

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